Três fatores principais impulsionaram Barack Obama nestes dois anos de campanha que resultaram em sua eleição a presidente dos Estados Unidos: o desgaste de seu antecessor, George W. Bush; a crise do mercado imobiliário iniciada em 2007; e o planejamento de campanha, associado a um forte engajamento dos eleitores.
A gestão George W. Bush (
leia sobre ela aqui) durou oito anos e foi marcada por fatos que resultaram em um enorme desgaste para Bush - e por extensão, ao partido Republicano.
Se em 24 de setembro de 2001, pouco após os ataques terroristas de 11 de Setembro, Bush tornou-se o presidente mais popular da história dos Estados Unidos,
com 90% de aprovação, segundo o instituto de pesquisas Gallup, sua popularidade despencou - não a ponto de evitar sua reeleição em 2005, mas principalmente em seu segundo mandato.
Entre os principais fatos que resultaram em seu desgaste, estão a
invasão ao Iraque; a
divulgação de fotos de iraquianos torturados por soldados norte-americanos, que levou a um
pedido de desculpas por parte de Bush;
a lenta e falha reação do governo ao furacão Katrina, classificada pelo próprio Bush como "inaceitável"; e, por fim,
a maior crise econômica que os Estados Unidos tiveram desde os anos 30.
Durante esta crise, conhecida como crise do "subprime", como é chamada a modalidade de empréstimos de segunda linha no país, alguns dos maiores bancos dos Estados Unidos anunciaram prejuízos bilionários e tiveram de ser socorridos. Em setembro de 2008, o governo elaborou um pacote contra a crise, cuja criação esbarrou na dificuldade de aprovação no Congresso. Bush teve de utilizar um discurso mais rígido e falar que a economia norte-americana pode entrar em recessão - o pacote de socorro foi aprovado só em outubro. Mesmo assim, os investidores desconfiaram da eficácia do plano e, com temores de que possa acontecer uma recessão global, os mercados desabaram.
A crise financeira permanece insolúvel e será um dos legados de Bush para Obama - outro, ainda na área econômica, é que apesar de Bush ter herdado um superávit de US$ 651 bilhões (R$ 1,3 trilhão) ao assumir o poder, em 2001, ele vai deixar o orçamento com déficit recorde de US$ 438 bilhões, sem levar em consideração o pacote de estímulo econômico no valor de US$ 700 bilhões.
Esses números tiveram influência em mais da metade dos norte-americanos: pesquisas de boca-de-urna realizadas no dia da votação mostraram que
a economia era a principal questão da campanha para 62% dos eleitores.
Como resultado direto dessa enorme queda na popularidade de Bush (de 90% de aprovação em setembro de 2001 a menos de 30% de aprovação em 2008), o partido Republicano, desgastado, escolheu como candidato a presidente John McCain, político considerado distante de Bush. Além disso, o presidente tomou cada vez menos parte na campanha conforme se aproximavam as eleições. Durante os últimos dias antes da votação, apenas se mostrou ante à imprensa para pegar um helicóptero que o levou a Camp David.
Campanha diferenciadaA esses dois fatores (desgaste do presidente e crise financeira) relacionados à gestão de George W. Bush, somam-se mais dois, agora resultados da estratégia de campanha de Obama: o planejamento cuidadoso, que contou com incursões pela Internet e a Estados que não eram considerados prioritários por outros candidatos, e a resposta do eleitorado frente a esse estímulo diferenciado.
Para Rubens Ricupero, ex-Secretário-Geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ex-embaixador do Brasil em Washington, a campanha de Obama "foi de uma qualidade exemplar" (
assista à entrevista aqui). "Primeiro, pela audácia de buscar os recursos na Internet: ele é o primeiro candidato que faz da Internet um grande instrumento. Com contribuições pequenas, de US$ 20 ou US$ 50, ele conseguiu bater de longe qualquer outro (
em arrecadação)", analisou. "Segundo, uma campanha muito inteligente, fora do esquadro", completou Ricupero. "Nos Estados Unidos, há muito tempo que os candidatos só disputam aqueles Estados que têm muitos votos e que podem passar de um partido para o outro. Ele, não: resolveu entrar em muitos Estados ao mesmo tempo e virou o jogo em Estados que eram considerados republicanos."
A aproximação com os mais jovens acontece dentro e fora da Internet. No site de relacionamentos Facebook, Obama mantém 2 milhões de "amigos" contra 500 mil de McCain. Os jovens também aumentaram as platéias de seus comícios, que chegaram a reunir 100 mil pessoas.
Em agosto de 2008, Obama conseguiu US$ 66 milhões em doações, um recorde em arrecadação mensal. No mês seguinte, mais que dobrou esse número:
foram US$ 150 milhões recebidos para a campanha, um novo recorde.
No total, a campanha de Obama angariou US$ 600 milhões, outro recorde em eleições, e reuniu uma grande rede de voluntários, entre não-famosos e
famosos. Além desses colaboradores, ainda conseguiu o apoio de pessoas influentes, como a apresentadora de TV Oprah Winfrey; Paul Volcker, ex-presidente do Fed (Banco Central norte-americano); Caroline Kennedy, filha do ex-presidente John F. Kennedy; e, mais recentemente, de Colin Powell, ex-secretário de Estado de George W. Bush.
O resultado também se refletiu no comparecimento às urnas:
quase 66% dos eleitores registrados para as eleições presidenciais norte-americanas compareceram às urnas na terça-feira e resistiram às longas filas, de acordo com o site Real Clear Politics, o que significaria a maior taxa de participação desde 1908.
Outra conseqüência desse planejamento:
houve vitórias em Estados tradicionalmente republicanos, como Carolina do Norte (em que Obama venceu por 50% a 49%) e Virgínia, que desde 1964 não votava num democrata (Obama venceu por 52% a 47%).
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Com informações de BBC Brasil, Folha Online e Reuters