|
|  |

18/04/2008 - 19h43
Poluição visual, engajamento "contido" e ceticismo marcam campanha eleitoral paraguaia na fronteira
Diogo Pinheiro Enviado Especial do UOL Em Ciudad del Este
"Nos meus 57 anos de vida nunca vi uma campanha como esta." É assim que a comerciante Maria Martinez resume o clima que tomou conta do Paraguai com as eleições que acontecem neste domingo (20), em que três candidatos aparecem com chances de ganhar.
Tomando seu tereré, bebida feita à base de erva-mate, sentada em frente à sua loja de produtos comésticos, no centro de Ciudad del Este, terceira cidade mais populosa do país, mas que responde por quase metade do PIB (Produto Interno Bruto) de cerca de US$ 10 bilhões do Paraguai, a comerciante também expressa o sentimento de boa parte da população do Paraguai, de acordo com as últimas pesquisas de opinião.
"Vou votar em Fernando Lugo. Quero experimentar outro personagem. São 60 anos da mesma coisa. O Partido Colorado [que governa o Paraguai há 60 anos] vendeu tudo para o Brasil. Nós somos pobres. O Brasil é milionário. Lugo vai ajudar os pobres, dando terrenos e impedir os camponeses de entrar nas propriedades privadas", explica Martinez.
Levantamento feito pelo jornal "Ultima Hora" coloca o ex-bispo católico Fernando Lugo, candidato da Aliança Patriótica para a Mudança, em primeiro lugar, com 34,5% das intenções de voto. Em segundo lugar, praticamente empatados, estão o ex-gereral Lino Oviedo, do Partido União dos Cidadãos Éticos, (28,9%), e a governista Blanca Ovelar (28,5%).
Mesmo com o fim da campanha oficial no início desta sexta, Ciudad del Este, que fica na fronteira com o Brasil, está tomada por outdoors, faixas e panfletos pregados em postes e paredes nas ruas. Nos carros adesivos e bandeirolas. Carrinhos de frutas também servem de plataforma de campanha.
Apesar do grande volume de publicidade eleitoral e do engajamento dos eleitores, as manifestações são contidas. Não passam de um sinal de positivo como o polegar. Muitos eleitores não concordam em ser fotografados ao lado de cartazes de seus candidatos.
Nas centenas de barracas montadas nas calçadas do centro da cidade, bem em frente às lojas, a maioria delas de eletroeletrônicos e roupas, a população acompanha ao noticiário político por meio de jornais.
No canteiro central da principal avenida de Ciudad del Este, ao lado de centenas de colegas que passam o dia sentados em cadeiras no local trocando dinheiro ao ar livre, o cambista Romoaldo Portilho, 55, lê em um jornal local notícias sobre o último debate entre os candidatos e também sobre o último comício de seu candidato.
"Lugo é mudança", diz. "Sou Colorado, mas nossa situação é triste. Quero mudança", conta. Portilho tem seis filhos. Dois, segundo ele, foram para a Espanha em busca de emprego. "Os meninos não querem mais estudar. Sabem que não terão trabalho no Paraguai", diz.
Não é preciso mais de duas horas de caminhada pelas ruas de Ciudad del Este para constatar que as eleições estão mesmo disputadíssimas no Paraguai. Ao lado do ponto de Portilho, o também cambista Ignácio Gonçalvez, 38, toma um prato de sopa de legumes, no almoço, e defende seu candidato.
"Lugo tem conhecimento, mas não conhece o mundo. Lino conhece bem o mundo, tem contatos por todo o lugar, principalmente no Brasil", afirma.
"Lino prometeu licença remunerada de seis meses para as mulheres que têm filhos recém-nascidos. Ele fará com que o Brasil, que é o melhor país do mundo, nos ajude", afirma a dona-de-casa Sulma Descano, 29, antes de comprar frutas também no centro da cidade. A poucos metros dali, o soldado da Polícia Nacional Armando Mendoza, 26, patrulha o local. Há seis anos na corporação, com uma espingarda em punho e com medo de ser fotografado reclama da violência no país, mas, mesmo assim, diz que somente Blanca pode ajudar as pessoas. "Ela conhece bem o presidente [Nicanor Duarte]. Vai ajudar as pessoas. Quero que ela melhore o salário dos policiais. Coloco minha vida em risco. Há muitos ladrões e assassinos por aqui", afirma.
Mas sempre há uma exceção. Esmido Gomes, 27, diz que nunca votou e nem vai votar domingo. O voto não é obrigatório no país. "Para mim, não tem importância. Não dependo deles [candidatos]. Muitos jovens pensam assim. Estão sem trabalho. Ninguém vai resolver, de verdade, o problema do contrabando na fronteira", afirma. "Poderiam regularizar", diz, apontando os CDs e DVDs piratas que comercializa irregularmente.
E por falar em fronteira, o clima de campanha não toma conta só dos paraguaios. A brasileira Clarice de Almeida, 54, que mora em Foz do Iguaçu, na margem brasileira do rio Paraná, mas trabalha há 40 anos em Ciudad del Este, vendendo saladas de frutas e bolos, usa um boné com o nome de Lino Oviedo. "A gente faz de tudo para ganhar um trocado no Paraguai, já que, no Brasil, não tem emprego mesmo", desconversa sem revelar a gorjeta que recebeu para usar o brinde.

|  |
|