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18/04/2008 - 08h01
Terras de 'brasiguaios' devem ser regularizadas, diz embaixador
Claudia Andrade
Em Brasília
O embaixador do Paraguai no Brasil, Luis González Arias, defende a regularização tanto dos brasileiros que vivem no Paraguai, como de suas terras, para evitar problemas futuros. Entre 400 mil e 500 mil brasileiros vivem no país, sendo que apenas 115 mil são legalizados. Grande parte dos chamados "brasiguaios" é de agricultores que ajudaram o país a figurar entre os maiores produtores e exportadores mundiais de soja. E a reforma agrária, que é um ponto de preocupação para os brasileiros donos de grandes propriedades, também gera atrito com a população local.
"Pode vir a ser um problema se não for feita a legalização da presença dos brasileiros no Paraguai e a regularização da posse de terras. Há uma parceria de cooperação técnica para facilitar o uso de pequenos satélites e GPS para localizar e regularizar as terras dos imigrantes. Só que muitos brasileiros arrendam a terra que utilizam para a cultura (de grãos). Outra questão é a documentação, que é feita segundo os acordos de imigração dentro dos países do Mercosul. Há um trabalho para que os países facilitem o trâmite."
O embaixador admite que há problemas entre os produtores estrangeiros fixados no Paraguai e os camponeses, mas diz que são ocorrências isoladas. "O problema não é com o grande produtor, mas com quem compra terreno para especulação ou quem arrenda a terra e expulsa os camponeses, o que forma um cinturão de pobreza nas zonas urbanas. Muitas grandes empresas não respeitam as normas ambientais, usam agrotóxicos. E também a soja é uma cultura muito agressiva, que provoca desmatamento", enumera.
Camponeses que moram perto das grandes propriedades fazem ainda acusações de intoxicação e de brigas por propriedades, segundo Arias. "Mas isso é normal, não é uma questão generalizada", garante.
Não é 'brasiguaio', é paraguaio É a parte relativa à integração dos brasileiros que o embaixador prefere destacar. "Em San Alberto e Santa Rita, a maioria da população é brasileira, até o prefeito é brasileiro. E tem rádios comunitárias em português, porque isso não é proibido. É uma questão de tempo (para a integração). As duas primeiras gerações já falam o guarani. A questão é que antes se dependia muito do crédito brasileiro e dos sistemas de saúde e educação. Isso está melhorando, mas ainda se depende do mercado brasileiro", pondera. "Esse termo 'brasiguaio' não tem motivo de ser; se tem filho no Paraguai, é paraguaio", completa.
Homem no campo Na opinião do embaixador González Arias, o deslocamento da população do campo para as cidades deve ser contido. O projeto de cooperativas de produtores seria uma alternativa para implementar a reforma agrária, já existente no país "há 40 anos", segundo ele.
"Há 40 anos a reforma é feita no Paraguai, o que precisa é dar condições de saúde, garantir alimentação e dar a possibilidade de sobrevivência; não adianta dar só a terra. Mais de 35 mil famílias já foram beneficiadas pela reforma agrária, mas só 15 a 20% ficam com a terra. As outras vendem, porque, para o pequeno agricultor individual, é mais difícil se estabelecer. Por isso a importância de um trabalho em forma de cooperativa de produtores, com criação de uma cultura de auto-sustento e apoio para que elas tenham competitividade", ressalta.
Urbanização Embora admita ser algo "lento" garantir a subsistência de pequenos produtores, Arias afirma ser "muito mais caro manter a gente que saiu do campo e foi para Assunção e outras zonas urbanas" e defende a reocupação do campo.
Segundo o embaixador, o Paraguai, que sempre teve um perfil rural, está perdendo esta característica. A proporção populacional, que era de 70% no campo e 30% na cidade, mudou bastante e sofre com os problemas urbanos.
"Agora está quase 50-50, com todos os problemas da cidade, como a falta de emprego, a marginalidade, a perda do sentido de ética consigo mesmo. Mas o Paraguai tem seis milhões de habitantes. Somos poucos, ainda é possível solucionar os problemas", aponta.
Etanol Um atrativo para o retorno ao campo seria o biocombustível. O Brasil tem uma parceria com o Paraguai neste setor, para troca de informações, capacitação, transferência de tecnologia, e pesquisas de matérias primas para a produção.
"O Paraguai tem duas ou três usinas de etanol e estabeleceu imposto zero para carros (com motor) flex", destaca Arias.
Ele defende a produção, que foi alvo de críticas recentes da ONU. A Organização das Nações Unidas considera que a produção em massa dos biocombustíveis reduz as terras destinadas ao cultivo de alimentos, o que contribui para o aumento dos preços dos mantimentos.
"O Paraguai produz muitos alimentos, muitos grãos. Esta história de que a produção de biocombustível vai produzir mais fome é relativa, porque nós não vamos usar milho, soja para fazer isso, vamos produzir com outras fontes", afirma o embaixador.

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