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20/04/2008 - 14h03
Paraguai é o 1º a eleger seus representantes no Parlamento do Mercosul

Carolina Juliano
Enviada especial do UOL
Em Assunção

As eleições presidenciais do Paraguai, que ocorrem neste domingo, não são apenas "atípicas", como têm classificado as autoridades, pela possibilidade de o Partido Colorado sair do poder depois de 61 anos de domínio. Os paraguaios também fazem a sua estréia na escolha dos deputados que representarão o país no Parlamento do Mercosul. É a primeira das nações que fazem parte do bloco a escolher, por via da eleição popular, seus parlamentares que ocuparão cadeiras nesse órgão.

Com sede em Montevidéu, no Uruguai, o Parlasul entrou em funcionamento no dia 7 de fevereiro, com a posse dos deputados e senadores indicados pelos Estados do bloco. Cada um deles - Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai - tem até agora de 18 lugares. A delegação da Venezuela, país que tem a adesão plena dependente de ratificações do Brasil e do Paraguai, tem por enquanto direito à palavra, mas não ao voto.

Por enquanto, o Parlasul só tem funções consultivas e, com o tempo, seus integrantes serão gradativamente substituídos pelos eleitos por votação popular, como faz neste domingo o Paraguai. "Para mim é um erro a criação do Parlasul", diz o engenheiro agrônomo paraguaio Henrique Rodriguez, que é representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) no Paraguai. "O Mercosul surgiu com um propósito e já está operando com outro."

Rodriguez diz que a "politização" de um bloco, que surgiu com a proposta de ser uma aliança de ajuda mútua entre os países, descaracteriza e prejudica as relações, principalmente com o seu país. "O Paraguai no Mercosul é como uma partida de rugby. Só que o adversário está com seu uniforme completo, com todas as proteções necessárias, e o Paraguai está nu", compara ele. "Nós não tempos condições para jogar essa partida sem o uniforme."

O engenheiro diz que Brasil e Argentina, "que desde sempre deram as cartas na mesa do Mercosul", certamente continuarão mandando no Parlasul. Para ele, a proposta do Mercosul, de que todos os seus Estados produzam os produtos considerados "rentáveis" para o bloco é absurda. "Não se pode usar toda a terra do Paraguai, por exemplo, para plantar cana-de-açúcar para o etanol, que muito interessa ao Brasil. Nem para plantar soja, como interessa à Argentina", diz. "Podemos plantar isso, sim, em regiões delimitadas, mas o Mercosul deveria aproveitar do Paraguai o que ele tem de melhor."

Ridiguez lembra que o seu país possui condições climáticas e geográficas "únicas" para a produção de orgânicos. "O Paraguai é um país único no mundo. Temos energia elétrica sobrando; temos água potável sobrando; temos quase 70% da nossa população formada por jovens. Que país no mundo tem essa capacidade? É preciso que o Mercosul exija do Paraguai algo que podemos oferecer. E que, depois, nos viabilize o mercado para vendermos a nossa produção."

Outro potencial do Paraguai, de acordo com o agrônomo, é o turismo. Uma espécie nova e diferenciada de turismo. "Há uma quantidade incontável de europeus que procuram no Paraguai uma viagem às origens. Já há aqui quem organize viagens a aldeias indígenas - há 19 tribos distintas no país - para experimentar o dia-a-dia dos nativos. É um turismo de sentimento."

O Brasil vai eleger os seus primeiros representantes diretos ao Parlasul em 2010, nas eleições presidenciais. Está programada para o próximo mês de maio a discussão no Parlasul sobre a distribuição de suas cadeiras. O projeto brasileiro propõe a seguinte composição: 75 parlamentares do Brasil, 32 da Argentina, 31 da Venezuela, 18 do Paraguai e 18 do Uruguai. O parlamento terá de tomar uma decisão sobre o assunto até o final de 2008.