O timoneiro do Tietê: Daniel Lira
O LOCAL
|
|
Cebolão das marginais
|
Rodrigo Bertolotto
Em São Paulo
“Eu estava desempregado. Por isso aceitei.” Daniel trocou há quatro meses a cidade de Presidente Epitácio (SP), à beira do rio Paraná, para capitanear um barco no Tietê. Agora dorme no alojamento a metros das águas fedorentas, trabalha oito horas cuidando da embarcação ou singrando entre material fecal e plástico. Fim do expediente, toma um banho, atravessa as oito pistas do acesso da rodovia Castelo Branco e vai tomar umas cervejas na vizinha Vila dos Remédios.
Da cidade, só conhece a avenida Paulista e o Brás, onde incrementou seu armário. "Tenho medo de andar por São Paulo", diz, tendo ao fundo carcaças enferrujadas de chatas usadas para a dragagem do rio. O pavor também é a reação das pessoas que embarcam no Almirante do Lago: "Elas vêem de perto o estado e ficam horrorizadas com o que fizeram com o rio." A viagem dura duas horas até a ponte das Bandeiras e é uma iniciativa da organização Navega São Paulo para denunciar a poluição do rio em que se nadava e se remava décadas atrás.
Daniel, 34, trabalha em barcos fluviais desde os 19 anos. Pegou gosto com o pai, cozinheiro da linha que ia a Hernandarias, no Paraguai. Fez curso de marinheiro, contrameste e mestre. Trabalhava em navios graneleiros entre Goiás e São Paulo até ancorar no Tietê.