Ele vende água engarrafada pra quem está no engarrafamento da marginal Pinheiros. Para isso, sai de sua casa em Osasco às 5h e puxa durante duas horas um carrinho, até estacionar no canteiro central da marginal, sempre com trânsito parado pela manhã. Ao meio-dia é hora de correr para seu ponto na beira do Tietê, no acesso à rodovia Castelo Branco.
O piauiense de 43 anos que vive há 22 em São Paulo já foi pedreiro e metalúrgico, mas hoje prefere os R$ 1.200 que ganha mensalmente no asfalto a um emprego na carteira: "Minha irmã me ofereceu um trabalho de R$ 580. Não compensa." A garrafinha de água mineral que compra por 37 centavos no atacado ele vende por R$ 1,50 (R$ 2 se o carro for de bacana). Ele conta que alguns vendedores colocam mulheres e filhas em roupas justas para lucrar mais na função. "Se for para uma mulher, o motorista paga R$ 3 por um refrigerante e nem reclama. Com a gente, eles chamam até de ladrão."
Nas poucas horas em que a via expressa cumpre sua função, Raimundo fica sem trabalhar e aproveita para ler a Bíblia ao som dos automóveis que passam rente e acolchoado pelos pacotes de pipoca industrial. Dormir nem pensar: "Algum fiscal da prefeitura pode vir e querer apreender tudo. Os caminhoneiros nos avisam quando aparece o rapa." Se a marginal é a praia dos paulistas (como os cariocas brincam), Raimundo é uma prova disso.