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25/04/2008 - 08h00
Congestionamentos agravam doenças respiratórias e cardíacas

Da Redação
UOL Ciência e Saúde

Os sucessivos recordes de congestionamento fazem o motorista perder mais do que a paciência. A poluição gerada pelos veículos também consome a saúde de quem vive na metrópole.

Entre os males causados pelo excesso de poluentes estão principalmente problemas no aparelho respiratório, como sinusite, rinite alérgica, bronquite, asma e enfisema pulmonar, além de conjuntivite, irritação nos olhos e nas mucosas.

Arquivo Folha Imagem
Estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da USP estima que a má qualidade do ar na região metropolitana de São Paulo provoque a morte prematura de 3.000 pessoas por ano, boa parte por causa dos níveis altos de enxofre liberado por fumaça de óleo diesel
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"As doenças respiratórias são caracterizadas por um processo inflamatório crônico das mucosas das vias aéreas que piora com a exposição aos agentes químicos da poluição", explica o alergista Fábio Morato Castro, da USP (Universidade de São Paulo).

As pesquisas têm apontado também relação entre a poluição e o aumento da ocorrência de câncer de pulmão e de doenças cardíacas, como arritmias e infarto , além da diminuição da fertilidade dos homens .

"A cada 10 microgramas por metro cúbico de poluentes acima do padrão recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), o risco de câncer de pulmão aumenta 12% e o de doenças cardiovasculares, 9%", afirma Paulo Hilário Nascimento Saldiva, médico e pesquisador do Laboratório de Poluição da USP. Em São Paulo, por exemplo, registra-se, em média, 20 microgramas por metro cúbico acima do padrão.

Escapamentos

Segundo Maria Helena Martins, gerente da Divisão de Qualidade do Ar da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), os escapamentos dos veículos são responsáveis pela emissão, na região metropolitana de São Paulo, de 95% do monóxido de carbono, 95% dos óxidos de nitrogênio e 40% das partículas inaláveis presentes na atmosfera.

Não é à toa que as grandes vias de tráfego são os locais onde há maior concentração destes poluentes. "Além disso, o nível de poluição nos carros é maior que na calçada", afirma Saldiva.

O aumento da emissão de poluentes e do tempo de exposição a eles, em decorrência dos congestionamentos, resulta no crescimento do número de consultas em prontos-socorros e internações hospitalares.

"No ano de 2006, das 4.700 internações causadas pela poluição do ar, aproximadamente 1.600 foram de doenças respiratórias causadas pela poluição advinda dos automóveis", revela Gheisa Roberta Telles Esteves, economista que estudou o custo da poluição dos transportes na saúde pública em São Paulo. Naquele ano, o valor chegou a US$ 500 mil.

Incluindo-se na conta a poluição proveniente de outras fontes, como as indústrias, os gastos sobem para US$ 1,2 milhão. "E essa é uma estimativa conservadora", lembra Saldiva.

Segundo ele, cerca de 200 pessoas procuram assistência médica todos os dias devido à poluição do ar na região metropolitana de São Paulo e entre 12 e 14 morrem.

Os mais vulneráveis

Além de crianças e idosos, a poluição afeta principalmente aquelas pessoas que já possuem problemas de saúde.

A analista de redes e telecomunicações Thaís Pryscilla Alves Couto, 26, é uma das pessoas que sofre com os efeitos do excesso de poluição na cidade. Ela tem rinite alérgica e convive, há anos, com dois companheiros inseparáveis, como gosta de dizer: a coriza e os espirros.

"Infelizmente não podemos nos isolar em lugares com ar puro e ficamos vulneráveis aos males que toda essa poluição pode causar ao nosso corpo, já que não fomos biologicamente preparados para esse tipo de agressão", diz.

O maranhense Diego Freire, 25, mora em São Paulo há um ano e meio e tem reclamações semelhantes. "Desde criança, tenho rinite, sinusite e conjuntivite alérgica. Mas desde quando cheguei em São Paulo, piorei bastante", relata.

Freire reclama que a poluição afeta principalmente seus olhos. Sintomas como vermelhidão e coceira deixaram de ser exclusividade de períodos de crise e passaram a ser cotidianos.

Mas não são só as pessoas com problemas respiratórios que apresentam manifestações agudas em decorrência da poluição. "Adultos com doenças cardiovasculares têm aumentados os riscos de infarto, arritmia e morte súbita", afirma Ubiratan de Paula Santos, presidente da Comissão de Doenças Ambientais e Ocupacionais da SPPT (Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia) e médico do Incor (Instituto do Coração) da USP.

De acordo com Santos, os picos de ocorrência de derrame, infarto e arritmia em motoristas e passageiros com doença coronária que permanecem no trânsito congestionado acontecem uma hora e 24 horas depois da exposição.

Exercícios físicos

Outro efeito agudo da poluição é a diminuição da performance atlética. Exposto aos poluentes, o atleta tem comprometidas as trocas gasosas do pulmão e o transporte de oxigênio pelo sangue, sentindo-se mais cansado e diminuindo seu rendimento.

"A pessoa deve evitar exercitar-se próximo aos corredores de tráfego intenso, como a avenida Sumaré, a Radial Leste e a Celso Garcia", recomenda Santos. A preferência deve ser para as vias secundárias e fora dos horários de pico de trânsito.

Em dias com umidade relativa do ar abaixo de 30%, pessoas que já apresentam doenças cardiovasculares e respiratórias, hipertensão e asma devem optar por não fazer atividades físicas. "A baixa umidade do ar faz com que o pulmão trabalhe em condições adversas ficando mais suscetível aos poluentes", explica Santos.

E nos dias quentes e ensolarados, é recomendável não se exercitar em parques no período da tarde. Essas áreas tem alta concentração de ozônio, poluente que se forma pela reação químicas entre "restos" da combustão dos carros na presença de luz solar, com picos entre 11h e 16h.

"O Ibirapuera é um dos locais onde há maior ocorrência de dias com alta concentração de ozônio", revela Martins. Só no ano passado, foram registrados no parque 41 dias em que os padrões foram ultrapassados.

Como se proteger

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o ar condicionado não é um aliado contra a poluição. "O ar condicionado garante um conforto térmico, mas não filtra o poluente e geralmente resseca o ar", explica Santos.

Além disso, esses aparelhos raramente são limpos em frequência adequada e, por isso, acabam funcionando como depósitos e pulverizadores de partículas.

Máscaras, como as usadas por médicos, tampouco são eficazes, mas podem adquirir uma valor simbólico. "A máscara tem uma conotação de protesto", acredita Saldiva.

Como estratégias para minimizar os efeitos da poluição, ele sugere a utilização de umidificadores, ou mesmo de bacias de água, que ajudam a manter a umidade do ar, contribuindo para a deposição das partículas que estão em suspensão.

Segundo ele, alguns estudos também têm apontado que dietas ricas em frutas e verduras podem contribuir para reduzir os efeitos nocivos da poluição.

Ainda que inviável para muitas pessoas, sair de casa fora dos horários de pico de trânsito e utilizar vias com menos fluxo de automóveis também são boas estratégias.