Um dos poucos sobreviventes do acidente com o airbus A-320, Wanderley Ferreira da Silva, de 33 anos, convocou a imprensa nesta quinta-feira para agradecer ao Corpo de Bombeiros e contar os momentos de terror que viveu durante a tragédia. Em entrevista coletiva no Hospital São Luiz, onde está internado com intoxicação por gases, queimaduras superficiais e estresse pós-traumático, ele fez um relato emocionado de seu resgate.
Prestador de serviços da TAM Express e atualmente funcionário da empresa EDS (o sobrevivente trabalhou na TAM durante sete anos), Wanderley estava em uma reunião no terceiro andar do prédio com outras oito pessoas quando ouviu um estrondo e em seguida viu o clarão produzido pelo choque da aeronave. Segundo ele, cerca de 40 pessoas trabalham diariamente no local, mas, como era final de expediente, entre dez e quinze estavam no edifício no momento do acidente.
Imediatamente após a explosão Wanderley conta que "cada um começou a correr para um lado". Ele então segurou na mão do amigo Paulo Zani e os dois correram em direção a escada, que encontraram já tomada por escombros. Respirando muita fumaça e ouvindo os gritos dos companheiros - que não conseguiam enxergar -, lembraram-se de um laboratório no fundo do andar que tinha janelas. Ainda de mãos dadas, os dois, agachados, seguiram até lá.
O próximo passo foi arremessar uma cadeira contra a janela para quebrar o vidro. Por lá, Wanderley e Paulo colocaram a cabeça para fora em busca de ar. "Eu olhava aquele céu e só queria ter um pouco de oxigênio para respirar naquele momento", lembra Wanderley. Rapidamente, os bombeiros chegaram, assim como uma multidão. Mas a escada do caminhão não alcançava a janela onde estavam, e tiveram que esperar até que outros veículos chegassem ao local. Apesar de tudo ter acontecido rápido, durou tempo suficiente para que tanto Paulo quanto Wanderley se desesperassem e considerassem pular do terceiro andar. Como estavam juntos, um tratou de convencer o outro a esperar o resgate. Os bombeiros e a multidão embaixo também gritavam para que não pulassem, e que o resgate estava próximo. Os bombeiros orientavam os dois a colocar as camisas no rosto para suportar a fumaça.
Com um guindaste, os bombeiros alcançaram primeiro Wanderley, depois Paulo. Casado e pai de três filhas, ele foi levado primeiro para o Hospital Jabaquara, e transferido no meio da noite para o São Luiz. O médico e coordenador clínico do hospital, Sebastião César de Vasconcellos, explica que o sobrevivente sofreu danos físicos (intoxicação e queimaduras superficiais) causados pela longa exposição química e térmica ao incêndio, mas, com o quadro estável, Wanderley deve receber alta já no final de semana. Entretanto, o paciente vai continuar em observação por conta do estresse pós-traumático, que faz com que ele reviva a experiência -com cheiros, sons e sensações- sempre que fecha os olhos.
Paulo Zani está bem, mas os médicos do São Luiz não souberam precisar o quadro atual já que o sobrevivente não foi encaminhado para o mesmo hospital. A Secretaria Estadual de Saúde não soube informar o hospital onde Zani encontra-se.
Quando questionado se sentia algum tipo de revolta pelo acidente, Wanderley não quis culpar ninguém: "Sem detalhes do ocorrido não dá para saber de quem foi a culpa", afirmou. O sobrevivente relembrou que, durante os anos que trabalhou no prédio, sempre houve temor por parte dos funcionários devido à proximidade com Congonhas.