
Beatos que esperam a comprovação do segundo milagre para a canonização:

Padre Inácio de Azevedo e seus 39 companheiros - o jesuíta português e seus companheiros morreram em uma expedição missionária atacada por calvinistas. Foram beatificados em 1854

Padre José de Anchieta - O jesuíta espanhol viveu no Brasil 44 anos catequizando os índios. Foi por sua fama de milagreiro, e não por um milagre específico, que João Paulo 2º o beatificou em 1980

Padres André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e 28 companheiros mártires - Em 1645, os padres e 28 leigos foram cercados e mortos por holandeses e índios por defender a fé católica. Beatificados em 2000

Padre Eustáquio van Lieshout - o holandês, que veio para o Brasil em 1925, foi beatificado em junho de 2006. Um padre que invocou sua figura teria se curado de um tumor na laringe

Padre Mariano De La Mata - espanhol, viveu no Brasil entre 1931 e 1983. Foi beatificado em novembro de 2006, depois que um jovem o invocou para se recuperar de um atropelamento
O maior país católico do mundo finalmente poderá rezar para um santo nascido em seu território: Frei Galvão. Madre Paulina, até então a única santa do Brasil, viveu a maior parte de sua vida aqui, mas era italiana. Frei Galvão nasceu em Guaratinguetá, interior de São Paulo, em 1739, e morreu em 1822. Vivo, já era chamado de santo, mas o status oficial só chegou agora, quase dois séculos depois de sua morte.
O processo de Frei Galvão iniciou-se em 1938 e foi retomado em 1991, quando o então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, nomeou como postuladora - espécie de advogada do candidato frente ao Vaticano - a irmã Célia Cadorin. Na época, irmã Célia estava cuidando do processo de madre Paulina, mas aceitou a nova causa. O primeiro passo foi juntar dados sobre a vida do Frei Galvão e reunir casos que poderiam ser considerados milagres - estes fundamentais para se chegar à santidade.
Muitos documentos encontram-se no Mosteiro da Luz, na capital paulista, onde Frei Galvão viveu cerca de 60 anos de sua vida e onde seu corpo está enterrado. A ajuda das irmãs enclausuradas que vivem no local foi fundamental para o trabalho, com destaque para a participação da irmã Cláudia Hodecker, responsável pela organização das informações referentes ao religioso. Por receber inúmeros depoimentos de graças, era irmã Cláudia quem selecionava os mais significativos e os repassava à irmã Célia. "São cartas, telefonemas e visitas diárias de fiéis contando os casos de benção", diz irmã Cláudia.
Irmã Célia nem se lembra de quantos casos analisou. "Eram caixas e mais caixas com centenas de possíveis milagres, e eu costumava consultar amigos médicos sobre os mais relevantes", explica. "Um deles eu até passei a chamar de 'dr. Não', de tantos casos que ele negou por sempre ter uma explicação científica".
A irmã também precisava de provas dos possíveis milagres, como exames e testemunhas oculares, o que seria fundamental na hora de documentar a cura. "Perdi diversos casos porque as pessoas envolvidas ou os médicos já haviam morrido", lamenta.
BiografiaIrmã Célia conta que relatos escritos descreviam o religioso como o confessor mais requisitado da região. Seus sermões também eram disputados. "As características marcantes de Frei Galvão eram a bondade e a caridade", afirma a irmã, que anexou ao processo, além dos relatos, algumas poesias escritas por ele em latim e conselhos que deixou às freiras enclausuradas: tratar os escravos como irmãos e não falar nem rir alto pelos corredores.
Apesar de querido pelos fiéis, Frei Galvão sofreu restrições políticas. Em 1780, o capitão-general Martim Saldanha, governador da capitania, expulsou-o de São Paulo, porque o religioso defendeu publicamente um soldado que havia sido condenado à morte. A expulsão foi revogada depois que fazendeiros e escravos, todos armados, cercaram a casa do governador. Anos antes, Frei Galvão já havia se defendido do Marquês de Pombal ao chamar de "recolhimento" o convento que estava construindo. "Depois que Pombal expulsou os jesuítas do país, ele continuou a perseguir a igreja. E Frei Galvão achou melhor chamar o local simplesmente de 'recolhimento', já que as pessoas não seriam proibidas de se recolher para rezar", diz a irmã. Isso não impediu que, em 1775, o mesmo governador Saldanha determinasse o fechamento do local. A proibição foi revertida em um mês por ordem do Marquês de Lavradio, então vice-rei do Brasil. Em 1929, o recolhimento transformou-se no hoje Mosteiro da Luz, no centro de São Paulo.
Processos de beatificação em andamento:

Albertina Berkenbrok - a brasileira devota de Nossa Senhora foi morta aos 12 anos ao resistir a um estupro

Irmã Lindalva - a freira brasileira morreu esfaqueada em 1993 por um homem que a assediava sexualmente em um asilo de Salvador

Padre Manuel Gonzalez e coroinha Adilio Daronch - o padre espanhol e o coroinha brasileiro foram mortos por soldados durante a revolução de 1923 no RS
O local foi construído entre 1774 e 1802 sob o comando de Frei Galvão. Mesmo sem conhecimentos arquitetônicos, o religioso fez o papel de projetista e engenheiro, além de atuar como mestre-de-obras e pedreiro. Hoje, o mosteiro é reconhecido como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco e tornou-se o destino preferido de milhares de devotos. A obra rendeu a Frei Galvão o título de padroeiro da construção civil.
As pílulasAs pílulas também estão por trás dos dois milagres que levaram o religioso à beatificação e à canonização. Uma cura de 1990 rendeu a Frei Galvão o título de beato oito anos depois. Em 1999, um novo caso legitimou a canonização. Ambos os milagres, portanto, ocorridos mais de 150 anos após sua morte.
As pílulas ainda são produzidas e distribuídas gratuitamente. Em vida, o sacerdote teria ensinado às freiras que viveram com ele no recolhimento a forma correta de produzi-las. Os ensinamentos foram repassados e a tradição se manteve no Mosteiro da Luz.
Outros mosteiros do interior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, além da Irmandade de Frei Galvão, em Guaratinguetá, passaram a fazer as pílulas, embora a produção mais significativa ainda ocorra no Mosteiro da Luz. Lá são distribuídos diariamente cerca de 5.000 envelopes (cada um com três unidades). Nos sábados, o número pode ultrapassar os 10 mil.
![]() Reprodução de imagem de Frei Galvão |
O processo é trabalhoso: as orações são escritas em tiras de papel que são enroladas em forma de canudo. Com uma tesoura, corta-se o canudo em canudinhos menores. Irmã Cláudia, que controla todos os relatos de graças, já contabilizou 4.000 curas desde que Frei Galvão foi beatificado, em 1998.
Os próximos santos
Em 1990, a menina Daniela Cristina da Silva foi internada com diagnóstico de hepatite. Em seguida, sofreu uma série de complicações, como infecção hospitalar, hemorragia do sistema digestivo e paradas cardíacas. A mãe apelou para a fé: fez novenas a Frei Galvão enquanto tomava suas pílulas e deu água benta à filha. Em pouco tempo, a menina saiu da UTI e foi curada. Após analisar uma série de exames, uma comissão médica do Vaticano reconheceu o milagre. Hoje, a menina vive com a família em São Paulo.

Quando Sandra Grossi de Almeida engravidou pela quarta vez em 1999, os médicos a alertaram que, novamente, o feto não resistiria. Seu útero tinha uma cartilagem que o separava em duas partes - nenhuma delas grande o suficiente para abrigar um bebê. Com medo, Sandra recorreu às pílulas, apresentadas a ela por uma amiga. Meses depois, o menino Enzo nasceu saudável e sem seqüelas. No fim de 2006, o Vaticano aceitou o segundo milagre de Frei Galvão.
são os santos individuais no mundo. Se forem considerados os casos em que mais de uma pessoa é canonizada em um só caso, há cerca de 40 mil santos católicos no planeta.