Uns parecem saídos das cruzadas medievais. Outros encarnam o visual franciscano, com direito até a rapar o cocuruto ao estilo do santo. E há os que não param de dançar ao som de forró, axé, rock ou qualquer ritmo, mas com letras de louvor.
| AS "TRIBOS" CATÓLICAS |
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 Daltoni Alves, 22, é seguidor da Renovação Carismática, ala que tem até aeróbica |
 Com cabelo e vestes a la São Francisco, os adeptos da Toca de Assis chamam atenção |
 Os arautos do Evangelho usam roupas que parecem saídas da Idade Média e coturnos |
 Chilenas seguidoras da ala conservadora Opus Dei dançam com ritmos brasileiros |
 Entre os fiéis folclóricos, está o mímico que se veste como Frei Galvão nos cultos |
 Com apenas 12 anos, roupas e penteado comportado, Gustavo sonha em ser padre |
 Patricinhas católicas não dispensam look fashion, ombro do namorado e gritinhos |
Os mais visíveis e barulhentos são os carismáticos, que adotam todo tipo de manifestação popular, só se preocupando em incutir letras religiosas nas músicas. Valem coros de torcida como "Olelê, olalâ, o papa vem aí, e o bicho vai pegar", "Ah, eu sou de Cristo" ou "Bento, Bento", imitando o cântico flamenguista "Mengo, Mengo".
Seus padres usam vários truques dos animadores de auditório. Na missa para jovens no Pacaembu, o padre-apresentador gritava "tira o pé do chão", coordenava os gritos e disparou quando Bento 16 chegou em seu papamóvel: "Coisa linda, o papa está no meio de nós. Ele vai dar a volta olímpica em nossos corações." A atmosfera parecia de uma 'rave'. Até freiras e seminaristas faziam coreografias.
Daltoni Alves, 22, era um desses "católicos aeróbicos", pulando, dançando e cantando. Seu maior símbolo na Renovação Carismática é o midiático padre Marcelo, mas a nova força da ala é a Canção Nova, organização que conta com uma TV, rádios e um santuário na cidade de Cachoeira Paulista.
Ele portava uma camiseta com a frase "Sou católico" e a bandeira brasileira amarrada no pescoço. A ala é criticada por outros setores da Igreja, apontando que há um excesso de utilização de recursos emocionais, semelhante aos cultos neo-evangélicos. "Não vejo diferença entre os movimentos, afinal, nosso fundamento é Cristo", argumenta Daltoni.
Mas quem vê os seguidores da ordem Toca de Assis logo percebe que está diante de alguém diferente. Vestes marrons, cordas usadas como cinto, homens usando capuz e mulheres de véu.
Depois de consagrados, os homens adotam um corte de cabelo como o de São Francisco de Assis, com cocuruto, franja e nuca raspados. O anel de cabelo que resta simboliza a coroa sagrada de espinhos de Jesus.
"Sempre gostei muito dos pobres de rua", afirma a aspirante Denise Andrade, que fez voto de pobreza, castidade e obediência. Ela dorme no chão do santuário, quando não dorme nas ruas com mendigos.
O irmão João Daniel, 26, parece que está fantasiado de São Francisco. "Deixei a família, a namorada, a faculdade de História e o emprego em Telecomunicações porque ouvi uma voz interior", afirma ele. "O mais difícil é tirar sentimento de punição e vingança. Largar as coisas materiais é fácil", completa.
Nos pés desses franciscanos não saem os chinelos. Já os arautos do Evangelho não tiram os coturnos. Eles usam roupas que lembram as dos cruzados medievais e entram nos lugares marchando perfilados, parecendo um desfile militar.
A postura marcial contrasta com a animação das garotas chilenas seguidoras da ala conservadora Opus Dei. "Nós dançamos e nos divertimos como todo o mundo", argumenta a estudante de psicologia Alejandra Fernández. Sua amiga, Catalina Canales, critica quem acredita na Opus Dei maquiavélica retratada no livro "O Código da Vinci", de Dan Brown. "Esse livro é fantasia, pura exageração. É como Harry Potter ou Senhor dos Anéis", afirma Catalina.
Há ainda a ala dos seminaristas, com suas roupas alinhadas e cabelos com fixador. "Quero ser padre desde os 8 anos. Estou há cinco meses no seminário, às vezes bate a saudade da família, mas já estou me acostumando. E não penso em namorar", confessa o seminarista Gustavo Henrique, 12, no meio de dezenas de similares.
| OS LOBISTAS DE SANTO |
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 Parente de Frei Galvão porta colar com árvore genealógica pendurada no pescoço |
 Sobrinha de Irmã Dulce veio a São Paulo e trouxe os "anjos", voluntários de Salvador |
 Marketeiros, adeptos da escrava Nhá Chica mostram faixa diante da área de imprensa |
Postura bem diferente é adotada pelas "patricinhas católicas" que foram à missa papal no Campo de Marte. Muitas usavam roupas bem justas, tiravam fotos para colocar em seus fotologs e escalavam os namorados para erguê-las nos ombros para poderem ver melhor o papa em seu papamóvel, como se estivessem em um show de rock.
Também não faltaram os personagens folclóricos nas proximidades do papa. Além de um Bin Laden e do sempre intruso Zaguinha (o rei das embaixadinhas dessa vez andava com uma Nossa Senhora Aparecida nas costas), quem se destacava era um artista de rua que se fantasiou de Frei Galvão e ficava estático como uma estátua do próprio.
Outro grupo à parte são os "lobistas de santo", ou seja, os devotos dos candidatos a santo do Brasil. Sorridente estava Cecília Leite Galvão, que ostentava no pescoço uma corrente com a árvore genealógica que a liga ao primeiro santo totalmente nacional. "A vida do Brasil vai mudar. Com um santo totalmente brasileiro vai dar uma força imensa ao país", sentencia Cecília. A família do santo bancou parte dos R$ 350 mil que foi o custo do processo de canonização no Vaticano.
O lobby, porém, está forte para Irmã Dulce ser beatificada -até o governador paulista, José Serra, entregou carta pedindo a aceleração do processo na Santa Sé.
Na missa papal, os anjos de Irmã Dulce, voluntários que fazem assistencialismo em Salvador (BA) levaram faixas e bonés para promover a freira morta em 1992. O processo de beatificação já tem sete anos e um milagre comprovado -são precisos dois casos documentados para virar santa. "Essa canonização de Frei Galvão aumenta nossas esperanças", diz Maria Rita Borges, sobrinha da candidata à santa. Outros lobistas são os da Nhá Chica, escrava negra que tem muitos seguidores em Minas Gerais.