Em contraste com o rígido conteúdo de seus discursos e sua igualmente severa imagem pública até agora, a visita de Bento 16 ao Brasil mostrou um papa surpreendentemente caloroso. Disposto a quebrar protocolos, o sumo pontífice chega neste domingo ao último dia de sua viagem pelo país com um saldo de diversas aparições não programadas, pelo menos um evento em que permitiu contato físico com fiéis, além dos indefectíveis abraços de criancinhas. Sempre sorrindo.
Há quem acredite que a afabilidade, que pode ajudar a diminuir a diferença entre sua popularidade e a de seu antecessor, seja uma reação à descontração do público brasileiro. Em todos os eventos de que participou até agora, o papa foi recebido por animadas multidões, geralmente sem muito apego a formalidades. Neste sábado, os fiéis chegaram a entoar, dentro da Basílica de Aparecida, uma versão cristã de tradicional cântico de estádios de futebol: cerca de 35 mil pessoas interromperam em diversos momentos a fala de Bento 16, algumas vezes ao som de aplausos, outras, ao som de "Bento, Bento", como no tradicional "Mengo, Mengo", ou num ritmado "papa, eu te amo".
No mesmo evento, o papa fez referências diretas à recepção dos brasileiros. Em discurso, declarou ter sido recebido com "muito carinho", acrescentando que João Paulo 2º teria comentado várias vezes sobre a simpatia do rebanho - "e ele tinha toda razão". Arrancou palmas e gritos. Sorriu.
Mesmo antes disso, a recém-descoberta descontração do papa não era mais segredo. "Vê-se que está se contagiando da alegria brasileira", disse a dominicana Angela Medina, de 26 anos, na frente da Basílica de Nossa Senhora da Aparecida. "Ele está muito mais expressivo do que quando o vi no ano passado na Alemanha", afirmou, referindo-se a um encontro mundial de jovens católicos.
O papa, de 80 anos, vem cumprindo uma extensa agenda e discursando várias vezes ao dia. Ainda assim, não tem hesitado em acrescentar breves, mas freqüentes, aparições-surpresa a seu roteiro. Em seu segundo dia de visita, apareceu nada menos que seis vezes na sacada do mosteiro de são Bento, onde estava hospedado, para saudar a multidão de fiéis que se aglomerava embaixo.
Mas, sem dúvida,
o contato mais próximo com a população aconteceu na Fazenda da Esperança na manhã deste sábado, em Guaratinguetá. Bento 16 - seguido por seguranças, parte da equipe que mobilizou 10 mil agentes no país - caminhou por cerca de 10 minutos ao longo de um corredor em meio aos 6.000 visitantes, apertando as mãos dos fiéis, tirando fotos e distribuindo bênçãos.
Entre os que pegaram na mão do papa, estava Edson Carlos Massotti do Nascimento, 27 anos, em tratamento na Fazenda da Esperança de Toledo, no Paraná, que admitiu ter ficado surpreso com o comportamento do pontífice. "Para mim, ele quebrou alguns paradigmas", disse. "Tinha uma visão do papa de quando ele era ainda cardeal, da Doutrina da Fé, o que pedia uma dureza. Mas aqui, ele no meio do povo, abraçando os excluídos, foi fantástico, nunca imaginei. O papa se sentiu tocado por nós."
O bispo auxiliar de Manaus, Sebastião Bandeira Coelho, também se disse surpreso com o desempenho do papa. "Surpreendeu a maneira como ele se relaciona com o povo, como ele se deixou contagiar pelo carinho e alegria do povo", disse. "Ele está demonstrando a face terna do papa, sempre sorridente, muito ao contrário da maneira como muitas vezes foi apresentado pelos meios de comunicação."
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Com informações da Reuters e AFP. Colaborou Rodrigo Bertolotto, enviado especial a Guaratinguetá