O ex-presidente da antiga Iugoslávia, Slobodan Milosevic, 64, foi encontrado morto em sua cela neste sábado, no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, na Holanda.
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| O ex-presidente Milosevic em Belgrado em foto de fevereiro de 2000 |
Milosevic era julgado, desde fevereiro de 2002, por genocídio e outros crimes de guerra por seu papel nas guerras da Croácia e Bósnia (1991-1995) e em Kosovo (1998-1999), bem como pelo massacre de 8 mil muçulmanos em Srebrenica no ano de 1995.
A causa oficial da morte ainda é desconhecida, mas o ministro de Assuntos Exteriores da Holanda, Bernard Bot afirma que foi "natural".
"É uma questão das Nações Unidas, mas entendi que Milosevic morreu de morte natural", disse Bot em breves declarações à imprensa depois de falar com Haia de Salzburgo, onde participa de uma reunião ministerial da União Européia. E acrescentou: "É uma pena que isto tenha ocorrido, sobretudo para as vítimas de Milosevic, já que teria sido melhor, do ponto de vista histórico, se a justiça tivesse podido seguir seu curso".
Saúde frágilSegundo a Rádio-Televisão da Sérvia, Milosevic morreu devido a uma piora súbita de seu estado de saúde. Milosevic sofria de hipertensão e problemas cardiovasculares. O processo foi interrompido cerca de 20 vezes nos últimos quatro anos por causa dos problemas de saúde do ex-presidente.
O tribunal para a antiga Iugoslávia negou no fim de fevereiro um pedido de liberdade provisória apresentado pelos advogados de Milosevic, que desejavam cuidar de sua saúde na Rússia.
Por isso, o irmão mais velho de Milosevic, Borislav Milosevic, ex-embaixador iugoslavo na Rússia, tachou de "desumana" a proibição do tribunal e acusou os juízes de violar os direitos do ex-presidente e as garantias oferecidas a ele por Moscou.
Borislav afirmou em Moscou que o Tribunal Penal Internacional é "totalmente responsável" pela morte do ex-presidente iugoslavo, segundo a agência de notícias Interfax.
A mulher e o filho do ex-presidente, que estão foragidos devido aos processos movidos pela Justiça sérvia, e a filha que vive em Montenegro - já receberam a notícia, segundo o tribunal.
O tribunal disse que a polícia holandesa e um médico legista holandês foram chamados e iniciaram um inquérito. Uma autópsia completa e um exame toxicológico foram determinados.
A morte do ex-líder sérvio acontece cinco dias após o suicídio do ex-líder dos sérvios da Croácia, Milan Babic, em sua cela no centro de detenção do TPII, onde cumpria uma pena de 13 anos por crimes cometidos contra civis não sérvios na rebelde República Sérvia de Krajina, no leste da Croácia.
Vácuo políticoEx-funcionário comunista e dirigente da companhia estatal de gás, Milosevic abriu seu caminho para o topo do poder da política iugoslava no vácuo político deixado pela morte do líder iugoslavo Josip Tito, herói da libertação contra os nazistas na Segunda Guerra (1939-45), que governou o país de 1945 a 1980.
Milosevic nasceu em Pozarevac (sul), em 1941, filho de um professor de teologia. Tanto o pai quanto a mãe cometeram suicídio. Entrou para o Partido Comunista da Iugoslávia aos 18 anos e formou-se em direito na Universidade de Belgrado em 1964.
Começou a dedicar-se exclusivamente à política em 1984, como herdeiro de Ivan Stambolic, chefe do Partido Comunista da Sérvia. Introduziu uma nova política populista na Sérvia com o que chamou "revolução antiburocrática", que ele usou para conseguir a liderança do Partido Comunista da Sérvia, em 1987, e tornar-se o homem forte da Sérvia.
Em 1989, a Assembléia da Sérvia retirou Stambolic da Presidência e a entregou a Milosevic. O Parlamento iugoslavo o nomeou presidente da República Federativa da Iugoslávia em 1997. Diz-se que foi muito influenciado pela esposa, Mirjana, professora de sociologia da Universidade de Belgrado, com quem esteve junto desde o colegial. O casal tem um filho e uma filha.
Ao longo de seus 13 anos no poder, ocorreram as guerras étnicas da Iugoslávia, na Bósnia (1991-95) e em Kosovo (1999). A "limpeza étnica" que comandou contra os albaneses em Kosovo, uma Província cara aos sérvios por motivos históricos, acabou após a intervenção da Otan, em 1999.
Depois de um intenso bombardeio, Milosevic foi forçado a aceitar a presença de tropas de paz da Otan em Kosovo e foi indiciado pelo Tribunal Internacional de Haia por crimes de guerra. Centenas de milhares de kosovares de origem albanesa teriam sido massacrados e expulsos de suas casas por forças iugoslavas que agiam sob seu comando.
Seu papel mais proeminente no cenário mundial foi desempenhado em Dayton, em 1995, quando reuniu-se com os líderes mundiais -inclusive com Bill Clinton- para assinar o acordo de paz que acabou com a Guerra da Bósnia.
Amante de charutos e de bom whisky, Milosevic foi sempre considerado um bom anfitrião pelos altos funcionários da comunidade internacional.
O presidente iugoslavo enfrentou um desafio interno em 1996, quando estudantes e líderes da oposição moderada uniram forças para protestar contra fraudes nas eleições regionais. Cerca de 500 mil pessoas marcharam diariamente, durante três meses. Milosevic deu para a oposição a administração de cidades endividadas, e a oposição se dissolveu em disputas internas.