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03/03/2008 - 14h33

Tensão deve continuar, mas guerra sul-americana é improvável, dizem analistas

Vicente Toledo Jr.
Em São Paulo
As tensões dentro da América do Sul devem continuar e até aumentar de intensidade, mas não devem desencadear um conflito armado entre Colômbia, Venezuela e Equador.

Esta é a opinião de dois especialistas em política internacional ouvidos pelo UOL nesta segunda-feira, depois de um fim de semana agitado em que os governos equatoriano e venezuelano reagiram asperamente às ações militares colombianas em território vizinho.

"Era um conflito previsível, que só não havia acontecido até agora porque não havia ocorrido esse tipo de intervenção mais direta em territórios vizinhos à Colômbia", disse o cientista político Rafael Villa, professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

"Mas não acredito que o problema chegue ao extremo de um conflito militar porque nenhuma das forças políticas que existem nesses três países tem liderança suficiente sobre o conjunto da sociedade civil para levá-los a uma guerra", completou Villa. No entanto, ele não descarta essa hipótese por causa da "escalada verbal" de acusações pouco diplomáticas de ambas as partes que parece sem limites.

Já para Alcides Costa Vaz, professor do Instituto de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Brasília, o fato mais preocupante é a movimentação de tropas nas fronteiras, que indica uma disposição dos governos para o confronto bélico.

"Existe a possibilidade sim de explodir um confronto armado, principalmente por causa da movimentação de tropas nas fronteiras, mas também pela postura de embate entre os governos de Colômbia e Venezuela. Chávez vem fazendo oposição a Uribe há algum tempo e aproveitou esse momento para fortalecer essa posição", comentou.

Com seu poderio militar inflado pela ajuda dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico, a Colômbia aposta em uma solução bélica para o confronto com as Farc, que contam com a simpatia de Hugo Chávez. Depois da operação militar em território equatoriano que terminou com a morte de um dos principais líderes guerrilheiros, o governo de Alvaro Uribe acentuou ainda mais as divergências com Caracas.

"A Colômbia errou ao entrar no território equatoriano e depois errou ao não admitir isso em seu pedido de desculpas", destacou Vaz, que considera o conflito armado seria "extremamente inoportuno" não só para os países envolvidos, mas também para toda a região. "Acho que eles devem se concentrar em tentar resolver diplomaticamente a questão entre Colômbia e Equador para não deixar que o conflito se espalhe pelas regiões vizinhas", ponderou.

O papel do Brasil
Villa, entretanto, duvida que esses países possam negociar uma saída diplomática neste momento porque ambas as partes adotaram posições políticas muito radicalizadas. "A Colômbia entrou em território equatoriano não por legítima defesa. Foi uma ação planejada, uma ação militar de inteligência. Então, a solução passa por todos voltarem a climas mais serenos, por isso eu acho muito importante o papel de mediação do Brasil e de outros países como Argentina e Chile".

Mediação que, segundo o cientista político, já demorou demais. "Esses países de maior peso dentro do sistema interamericano estão tendo uma resposta muito lenta. Era o caso de já terem sido convocados alguns mecanismos, por exemplo, da OEA (Organização dos Estados Americanos). Ou então de o próprio Brasil tomar iniciativas mais pró-ativas, como o envio de emissários ou uma intervenção do presidente Lula, chamando esses países ao diálogo e estabelecendo uma meta de negociações", afirmou.

Vaz concorda com a necessidade de atuação brasileira, mas somente no campo diplomático. "Temos que fazer o bom trabalho diplomático para evitar uma guerra. Mas tem que ser uma atuação mais distante, sem nenhum tipo de iniciativa bélica ou apoio a qualquer um dos lados", afirmou o professor da UnB.

Os efeitos de um improvável conflito armado para o Brasil ainda são difíceis de imaginar, mas a proximidade geográfica indica que a região amazônica pode ser a primeira a senti-los. "O fluxo de refugiados colombianos para o Brasil já existe, estima-se que sejam entre mil e 4 mil atualmente. Ainda é impossível saber que proporções ele pode tomar no caso de uma guerra, mas existe uma tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela que pode vir a ser um ponto de tensão no futuro", disse Vaz.

EUA não devem intervir
Aliados de Uribe e rivais de Chávez, os Estados Unidos não devem intervir neste primeiro momento. Segundo os especialistas, a postura norte-americana deverá ser de observação e respeito aos esforços diplomáticos dos líderes regionais. "Eles devem aguardar para ver se atuação de países como Brasil e Argentina será suficiente para resolver diplomaticamente o impasse antes de adotarem alguma medida mais ativa", afirmou Vaz.

Já para Villa, a ajuda militar dos EUA à Colômbia desequilibra a correlação de forças na região. "A Colômbia se destaca porque é o sexto país que mais recebe ajuda militar dos EUA. Se admitirmos a hipótese da formação de um eixo entre Venezuela, Equador, Bolívia e, eventualmente, Nicarágua, seria provável uma intervenção dos Estados Unidos. Mas eu não acredito que isso vá acontecer".

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