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02/07/2008 - 16h44

Ingrid Betancourt era candidata à presidência da Colômbia quando foi seqüestrada

Das agências internacionais
A senadora Ingrid Betancourt era então candidata à presidência da Colômbia quando foi seqüestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no dia 23 de fevereiro de 2002, junto com sua companheira de chapa Clara Rojas. Elas tentavam entrar numa zona desmilitarizada do sul do país, três dias depois de o então presidente, Andrés Pastrana, cancelar o processo de paz com essa guerrilha. A ação aconteceu perto de San Vicente del Caguán, 740 km ao sudeste de Bogotá, durante o governo de Andrés Pastrana.

Um recente vídeo de Ingrid comoveu o mundo. Na gravação, a ex-senadora apareceu cabisbaixa, aparentemente esgotada e extremamente magra.

Conheça a história
de Ingrid Betancourt

    Suas múltiplas tentativas de fuga, as longas marchas na selva, as noites que passou acorrentada e os constantes conflitos com seus captores parecem ter acabado psicologicamente com esta mulher corajosa e carismática.

    "Eles (os guerrilheiros) me tiraram tudo. Tento ficar silenciosa, falo o mínimo possível para evitar os problemas. Não tenho vontade de nada", escreveu Ingrid, na última carta enviada a sua mãe.

    As circunstâncias do seqüestro mostraram muito de sua personalidade: ela chegou a ser advertida pelas autoridades sobre os riscos que corria em meio à ofensiva para retomar a área de distensão, mas disse que havia se comprometido a visitar os moradores de San Vicente del Caguán, sede do diálogo.

    Em um vídeo divulgado pelas Farc em julho de 2002 como prova da sobrevivência de Ingrid, ela destacou sua divergência com relação à lei de troca proposta pelos rebeldes, desperdiçando a chance que teve de reivindicar sua liberdade.

    Esta posição foi reforçada em outro vídeo divulgado no dia 31 de agosto de 2003 em que expressou concordância com um resgate militar, desde que a decisão fosse tomada pelo presidente Alvaro Uribe e apesar da oposição de sua família.

    "Ela é terrivelmente disciplinada, voluntariosa, independente. Quando quer alguma coisa é cabeça-dura, de caráter... Eu a admiro. Ela encara as coisas de frente. Chamou o ex-presidente Ernesto Samper de criminoso, ela é inflexível, amiga da verdade, não se deixa convencer facilmente", desabafou sua mãe, Yolanda Pulecio.

    Liliane Estefan, uma amiga de infância, lembra dela como uma mulher inteligente, ambiciosa, intelectual, com um grande poder de persuasão e tendências de esquerda".

    "Ela sabe comandar, tem uma personalidade muito forte, dominante. Sempre a vi lutar pelas causas sociais. Desde o colégio ela se interessava pelos problemas do país", comentou à AFP.

    Cronologia do seqüestro
    Poucos dias depois do seqüestro de Betancourt, em 2002, a guerrilha ofereceu libertá-la em troca de rebeldes presos pelo governo colombiano. Nas eleições presidenciais que aconteceram em 26 de maio daquele ano, a candidata recebeu apenas 0,5% dos votos.

    Na ocasião foi eleito Álvaro Uribe, partidário da linha dura com a guerrilha. Antes de sua posse, no começo de agosto, as Farc divulgam um vídeo de Betancourt gravado no dia 15 de maio.

    Já no poder, Uribe revela um plano para enviar rebeldes presos ao exterior, com apoio da França, em troca da libertação de seqüestrados políticos. A troca seria de 45 reféns, incluíndo Betancourt -que é cidadã franco-colombiana-, por 500 guerrilheiros presos.

    Em dezembro, as Farc exigem que sejam desmilitarizados dois departamentos (total de 115.000 km2) para negociar a troca.

    Apenas em abril de 2003, a guerrilha designa três negociadores para a troca. Em 9 de julho, a França envia um avião a Manaus, na Amazônia brasileira, para uma eventual libertação de Betancourt, numa operação secreta que fracassa.

    Um mês depois, Betancourt aparece pela segunda vez num vídeo, gravado em maio de 2003.

    Em dezembro de 2004, o presidente colombiano Álvaro Uribe liberta 23 guerrilheiros para destravar o bloqueio a um acordo. No dia seguinte, as Farc pedem a libertade de 500 rebeldes e a desmilitarização de mais um território, de 800 km2, que inclui os povoados de Florida e Pradera.

    Um ano depois, em 13 de dezembro de 2005, França, Espanha e Suíça propõem negociar a troca de reféns por prisioneiros em uma pequena propriedade rural no sudeste da Colômbia, com observação internacional. Uribe aceita. Mas em 2 de janeiro de 2006, a guerrilha diz desconhecer a proposta européia e considera que negociar seria favorecer Uribe, que estava em campanha para reeleição.

    Em maio, Uribe é reeleito para um segundo mandato. Quatro meses depois, as Farc divulgam um vídeo com 12 deputados reféns. Um líder assegura que Betancourt vive nas mesmas condições que os guerrilheiros.

    Em 28 de setembro, Uribe anuncia a disposição de desmilitarizar os povoados de Flórida e Pradera. Mas em 20 de outubro, o governo suspende as aproximações devido à explosão de um carro-bomba, atribuída às Farc, em uma universidade militar em Bogotá.

    No início de 2007, Uribe diz ante a cúpula da polícia que o ano será "crucial para resgatar os seqüestrados". A França e a família de Betancourt se opõem a uma operação militar.

    Em 28 de abril, o policial John Frank Pinchao, que partilhava o cativeiro com Betancourt, consegue escapar e conta que ela permanece num acampamento na selva do sudeste da Colômbia.

    Em 6 de maio, em seu primeiro discurso após ser eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy afirma que não esquecerá da sorte de Betancourt. No mês seguinte, Uribe começa a liberar mais de 120 guerrilheiros, entre eles o chamado "chanceler" do grupo, Rodrigo Granda, cuja liberdade foi solicitada por Sarkozy.

    Em 28 de junho, as Farc anunciam que 11 deputados reféns morreram em um "fogo cruzado com um grupo militar não identificado". Uribe acusa a guerrilha de assassinato. Em agosto, o presidente colombiano volta atrás e se diz disposto a negociar em três meses a paz. Como as Farc recusam a proposta, no mesmo mês Uribe nomeia a senadora da oposição Piedad Córdoba como facilitadora para a troca.

    Em 17 de agosto, o presidente venezuelano Hugo Chávez aceita fazer a mediação entre as Farc e Uribe. Três dias depois, Chávez recebe em Caracas familiares dos reféns. Nos dias seguintes, o presidente venezuelano conversa com Sarkozy por telefone sobre o caso.

    Três meses depois, porém, Álvaro Uribe suspende a mediação de Chávez junto aos rebeldes, acusando o presidente venezuelano de ingerência nos assuntos internos da Colômbia.

    Em 30 de novembro, o governo colombiano divulga provas de vida de Betancourt, de três norte-americanos e de alguns políticos, militares e policiais seqüestrados pelas Farc. As provas haviam sido apreendidas junto a três supostos rebeldes. Na ocasião foram divulgados uma carta de Betancourt a sua mãe e um vídeo. A gravação mostra a política em silêncio, abatida e cabisbaixa.

    No final de dezembro do ano passado, a guerrilha anunciou a intenção de entregar a Chávez a ex-deputada Consuelo González, a ex-candidata a vice-presidente Clara Rojas e o filho dela, Emmanuel, nascido em cativeiro. A decisão é um ato de "desagravo" ao afastamento do venezuelano da negociação.

    As Farc não revelam o local da entrega dos reféns e a operação de resgate é cancelada após três dias de incertezas, em meio a acusações das Farc e de Hugo Chávez de que o governo colombiano foi responsável pelo fracasso do plano. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, alega que a entrega não foi concluída porque as Farc não estariam com o menino Emmanuel.

    Em 4 de janeiro de 2008, um exame de DNA revela que um menino sob proteção do governo da Colômbia desde 2005 é Emmanuel, filho de Rojas. As Farc reconhecem que não estão com o menino. Cinco dias depois, o presidente Chávez diz que as Farc vão libertar González e Rojas. O governo de Caracas pede autorização a Bogotá, que dá luz verde à nova missão humanitária.

    Em 10 de janeiro, as Farc libertam as duas políticas em uma região na selva do departamento de Guaviare. No começo de fevereiro, o anúncio de mais três libertações. Em 27 de fevereiro, são entregues os ex-parlamentares Luis Eladio Pérez, Orlando Beltrán, Gloria Polanco e Jorge Eduardo Gechém.

    Em entrevista após sua libertação, Pérez afirmou ter visto Betancourt em janeiro, quando os grupos de reféns dos quais faziam parte se encontraram em uma caminhada pela selva. Eles se viram pela última vez em 4 de fevereiro.

    Segundo Pérez, Betancourt estava "muito deteriorada, física e moralmente". Durante o encontro, ele recebeu objetos destinados por ela a sua mãe, Yolanda Pulecio, a sua irmã Astrid e a seus filhos Melanie e Lorenzo Delloye, frutos do casamento da política com o diplomata francês Fabrice Delloye.

    Entre eles, está um cinto que Betancourt fez "com muito esforço, para que fosse entregue a Melanie", declarou o ex-refém. "(Betancourt) Disse-me, com muita emoção, que já tinham dado a ela vitaminas e cálcio e que estava tratando de se recuperar um pouco", lembrou Pérez.

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