A Bolívia vai às urnas neste domingo para uma votação pouco comum. O que está em jogo é nada menos que o futuro político do presidente Evo Morales e de oito dos nove governadores. Contestações judiciais e denúncias de fraudes à parte, os bolivianos terão entre a continuidade ou a revogação dos mandatos de Morales, do vice-presidente Álvaro García Linera e de oito dos nove governadores do país, exceto a de Chuquisaca, Savina Cuéllar, que tomou posse em junho.
Para que seja mantido no cargo, Morales deve receber uma votação superior à porcentagem obtida em 2005 e também ao número total de votos. O presidente deixa o Palácio Quemado se receber 54% de "Não" e 1.544.374 votos desfavoráveis.
Para o analista Eric Torrico, a realização do referendo já é uma vitória para o líder indígena. O professor da Universidade Andina Simon Bolívar acredita que, se não fosse o erro da oposição em aceitar a votação, Evo Morales hoje estaria de malas prontas para deixar o cargo. "Agora, a oposição teria força para aprovar tudo no Congresso ou com pressão das ruas, incluída a renúncia do presidente", avalia.
Em Santa Cruz de La Sierra, principal reduto opositor ao governo, as entidades civis contestam a realização do
referendo, mas o governador Ruben Costas aceita ser submetido a uma nova votação popular. Para o presidente da Câmara de Indústria, Comércio, Serviços e Turismo de Santa Cruz (Cainco), Eduardo Paz Vargas, o dia de hoje é uma chance de ver a maturidade do governo com a mudança na correlação de forças. Segundo as pesquisas, apenas três governadores estão garantidos no cargo. Os demais tirarão a sorte nas urnas e, talvez, em contestações judiciais.
O professor Eric Torrico lembra que, mesmo que Evo Morales já não seja um líder nacional, em política sempre é possível recomeçar. Como é provável que o presidente seja mantido no cargo com cerca de 60% dos votos, será preciso conversar com a oposição. Ele lembra que "Santa Cruz, Beni, Tarija e Pando [a chamada Meia Lua] não podem viver à margem do país. Será necessário sentar à mesa. Mas isso pressupõe que o governo deve deixar de lado o projeto de Constituição e, a oposição, os estatutos autonômicos. Ou seja, será preciso começar do zero".
Para o presidente da Cainco, o equivalente boliviano da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a autonomia é um processo irrefreável. Eduardo Paz Vargas acredita que os cidadãos do Ocidente, o altiplano, já estão vendo as vantagens do modelo econômico adotado no Oriente em que, segundo ele, "o cidadão é um protagonista do desenvolvimento".
O professor Eric Torrico acredita que, ainda que o processo autonômico seja irreversível, o modelo planejado por Santa Cruz é uma quase independência. Ainda assim, o analista não acredita que o estado queira de fato se separar porque os líderes já perceberam que o único caminho viável é desenvolver-se dentro da Bolívia. Com a separação, Santa Cruz seria rapidamente absorvida por algum país vizinho e passaria a ser um estado insignificante, por exemplo, da Argentina.
O diretor da Agência Boliviana de Informação, Grover Cardoso, concorda e destaca que o governo aceita o processo autonômico, desde que essa autonomia não seja uma forma de reforçar os poderes locais, mas apenas os estaduais. Ele acredita que o referendo é a possibilidade que o governo Evo Morales tem para relegitimar a gestão depois de uma forte campanha contrária da oposição.
O referendo deste domingo tem outros dois cenários pouco prováveis. Com o apoio do altiplano, Evo Morales não deve ter dificuldades para se manter no cargo. Além de tudo, a lei aprovada pelo Congresso é altamente favorável a ele, pois não exige maioria absoluta para ser ratificado.
Mas, caso aconteça o inesperado e o presidente seja revogado, ele deixaria apenas temporariamente o Palácio Quemado. Isso porque novas eleições seriam convocadas imediatamente e o provável vencedor seria... Evo Morales. Não há hoje qualquer liderança nacional capaz de ameaçar o presidente.
E há ainda a possibilidade remota de um outro cenário, este muito favorável ao indígena: uma vitória ampla, com mais de 60% dos votos. Nesse caso, o professor Eric Torrico acredita que Evo Morales teria apoio para convocar imediatamente mais dois referendos: um sobre questões fundiárias em que não houve consenso no projeto de Constituição, e outro sobre a Constituição em si.
Mas nem tudo é paz para o presidente. Nas últimas semanas, vem crescendo a oposição a ele em alguns estados e vários compromissos já foram cancelados para evitar constrangimentos públicos e enfrentamento entre grupos rivais. Os analistas apontam que, caso Evo Morales seja derrotado nesses estados, pode virar uma espécie de "presidente do Ocidente", ou seja, que não é reconhecido por boa parte da população do país.