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15/04/2009 - 18h52

Anúncio de Obama sobre fim de restrições a Cuba esvazia Cúpula das Américas, diz analista

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo
A retirada de algumas restrições contra Cuba, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na segunda-feira (13), serviu para mostrar uma nova postura do governo americano para a América Latina, e também para esvaziar a 5ª Cúpula das Américas, que acontece de 17 a 19 de abril em Trinidad e Tobago. A opinião é de José Augusto Guilhon Albuquerque, professor de Relações Internacionais da USP. Sem Cuba e sem a discussão em torno da integração do comércio, que foi abalada pela crise econômica, o encontro ficou "capenga", defende ele.

  • Michael Reynolds/Efe - 13.mar.2009

    Robert Gibbs (à esq.), secretário de imprensa da Casa Branca, e Dan Restrepo, conselheiro de política exterior para assuntos latino-americanos, anunciam retirada de algumas restrições contra Cuba

  • Javier Galeano/AP - 14.mar.2009

    Mulher (à dir.) chega dos EUA
    e é recebida em Havana um dia
    após o governo norte-americano encerrar restrições a Cuba

  • Javier Galeano/AP - 14.mar.2009

    Homem (de vermelho), chega dos EUA e é recebido por parentes

Para o professor, Obama está "cumprindo rigorosamente" o que prometeu durante a campanha, que é tratar de uma maneira política a questão cubana. "Isso do ponto de vista da imagem dos Estados Unidos na América Latina é extremamente positivo, porque há uma mudança bastante significativa de atitude e mostra que Obama está disposto a avançar e normalizar as relações com a ilha", diz.

Por outro lado, ressalta Guilhon, o presidente norte-americano antecipou a discussão em torno do embargo e "desarmou a orquestração que os regimes bolivarianos queriam criar em torno de Cuba" durante a Cúpula. "O que o Obama está fazendo é, de antemão, limpar o caminho e afastar da agenda uma manifestação mais agressiva", acredita.

Os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, prometiam pressionar os EUA para mudar as relações com o regime cubano, que está sob embargo desde 1962. Chávez chegou a dizer que estava preparando uma "boa artilharia" para confrontar Obama sobre a ausência de Cuba no encontro, que reunirá pela primeira vez todos os líderes do hemisfério, com exceção dos cubanos, e o atual presidente norte-americano.

"Agora não dá para prever como eles vão se comportar na Cúpula. Chávez e Morales agem como se Cuba fosse o ponto alto da agenda dos países da América Latina, quando na verdade é absolutamente marginal, porque isso é politicamente rentável. No entanto, os dois estão sendo duramente atingidos pela crise por causa do petróleo e, portanto, deveriam ter uma atitude mais razoável. Mas não sei se podemos esperar razoabilidade desses dirigentes", analisa Guilhon.

Diálogo
O professor Williams Gonçalves, dos departamentos de Relações Internacionais da UFF e da UERJ, afirma que a postura de Cháves e Morales, de governar por princípios, não vem sendo adotada por Cuba.

"Recentemente, assistimos a mudanças políticas promovidas pelo atual chefe de Estado de Cuba, Raúl Castro. Alguns ministros foram afastados e o sentido era claro: Raúl Castro procurava se cercar de pessoas dispostas a promover o diálogo com os Estados Unidos", enfatiza.

Para ele, os países perceberam que o diálogo é necessário para se obter ganhos sem que isso se traduza necessariamente em submissão. "Não dá para governar só com princípios, nem é muito produtivo se fechar completamente ao diálogo com os Estados Unidos. Isso não fará o país desaparecer do mapa", afirma. "É muito mais vantajoso explorar os canais de cooperação possíveis e chegar a um relacionamento mais maduro, em que os interesses nacionais de cada país sejam salvaguardados."

Gonçalves acredita ainda que a nova postura de Cuba e dos Estados Unidos são os primeiros passos em direção ao fim do embargo. Ele ressalta, no entanto, que o desbloqueio econômico não virá de graça. "Evidentemente, o diálogo exigirá concessões de ambas as partes. Cuba tem que ceder de alguma maneira para haver entendimentos", diz.

Sem esmolas
Os especialistas também destacam que a reação de Fidel Castro, de dizer que não vai aceitar "esmolas dos EUA", era esperada e faz parte das negociações.

"Cuba é a parte fraca e Fidel não quer dar o braço a torcer, não quer dar a entender que cedeu às pressões do Estados Unidos. Ele quer mostrar que quer negociar em igualdade de condições", afirma Gonçalves. "O fim das restrições beneficia primordialmente o povo cubano, tanto a parte que está em Cuba, como a parte que está no exterior, mas para o governo de Fidel não é relevante. Não é uma vitória do regime dele", completa Guilhon.

Eles concordam ainda que o fim de algumas restrições e um eventual fim do embargo representam enormes benefícios para o povo cubano, e o discurso de Fidel não vai impedir Cuba de reagir positivamente.

"A população tem a ganhar com geração de empregos, dinamização da produção e dos investimentos no país, elevação do nível de renda. Ou seja, eles poderão ter uma vida melhor. Evidentemente que os cubanos não desejam, e é isso que Fidel Castro sinaliza, que Cuba volte a ter o estatuto que tinha para os Estados Unidos antes da Revolução de 1959, quando era tratada como colônia econômica. Eles querem uma vida melhor, mas sem submissão", explica Gonçalves.

O papel do Brasil
O professor afirma que os homens que hoje ocupam o alto escalão do governo brasileiro "são homens que têm amizade com Fidel Castro, moraram em Cuba, foram abrigados pelo país e, portanto, têm uma relação não apenas política, mas pessoal com a ilha, e desejam ver Cuba reintegrada", diz Gonçalves.

Os ministros de Lula já declararam que vão pressionar para que o tema Cuba seja colocado em pauta durante a Cúpula das Américas. Celso Amorim, de Relações Exteriores, chegou a criticar a ausência de qualquer referência a Cuba no comunicado final do encontro e o fato de o país não estar na Organização dos Estados Americanos (OEA).

Mas, na opinião de Guilhon, no fim, o Brasil vai conseguir driblar a questão Cuba sem criar qualquer mal-estar com os governos mais radicais da mesma maneira que vai se aproveitar da boa relação que tem com o atual governo norte-americano.

"Cuba seria uma saia-justa para qualquer chefe de Estado, mas Lula tira de letra. Ele vai adotar um discurso bolivariano para o público, mas quando se encontrar em particular com Obama vai ser mais jeitoso", prevê.

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