Os eleitores da África do Sul vão às urnas nesta quarta-feira (22) para eleger seu novo presidente. O partido majoritário Congresso Nacional Africano (ANC, da sigla em inglês), que ganhou legitimidade na luta contra o apartheid, é mais uma vez o favorito, com 64% das intenções de voto nas pesquisas.
IMAGENS DA CAMPANHA
Nelson Mandela posa ao lado
do candidato Jacob Zuma
Veterano antiapartheid faz discurso em comício do Cope
Helen Zille, líder da Aliança Democrática, discursa
O candidato do ANC, Jacob Zuma, 67 anos, da etnia zulu, deve ser designado o próximo presidente da República. Zuma deve ser eleito porque seu partido, que é o mesmo de Nelson Mandela e está no poder desde 1994, é o mais popular entre os pobres sul-africanos. No ano passado, o partido enfrentou pela primeira vez um racha. Dissidentes formaram o COPE, ou Congresso do Povo, que pode ter até 15% dos votos e tornar mais equilibrado o jogo de forças no país.
Legitimado pela luta contra o apartheid, o ANC ganhou as três eleições gerais organizadas desde 1994, data da instauração da democracia e da eleição de Mandela como primeiro presidente negro do país. Em 2004, o partido obteve mais de 69% dos votos.
Nesta ocasião, os diferentes partidos da oposição convocaram os eleitores a se mobilizar para privar o ANC de sua maioria de dois terços que permite modificar a Constituição à vontade.
Questões judiciaisDurante a maior parte da campanha, os problemas judiciais de Zuma relegaram ao segundo plano as questões sociais e econômicas que continuam afetando o país, 15 anos depois da queda do regime racista.
Há três anos, Zuma foi acusado de estupro e julgado. Aos juízes, o hoje candidato disse que sabia que a mulher tinha Aids, mas levou a relação sexual adiante, sem camisinha, porque "o risco de pegar Aids para o homem é mínimo". Arrematou dizendo que tomou uma ducha em seguida, porque isso reduziria ainda mais o risco. Acabou absolvido, mas selou ali a ira eterna dos ativistas de combate à Aids a ele e a seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA).
Em 7 de abril, depois de oito anos de investigação, a procuradoria arquivou as acusações por fraude e corrupção contra Zuma. O procurador-geral do país baseou a decisão nos "abusos de poder" cometidos pelo chefe da investigação.
O anúncio provocou um certo desconforto no país, depois de meses de lutas dentro do partido governista. O confronto provocou em 2008 a renúncia do presidente Thabo Mbeki, acusado pelo próprio ANC de ter instruído a Justiça em uma disputa pessoal com Zuma, seu rival.
Outro partido importante de oposição na disputa é a Aliança Democrática, liderada pela prefeita da Cidade do Cabo, Helen Zille, e que tem um apelo grande junto à minoria de brancos, que compõem cerca de 10% da população. "Se o ANC obtiver dois terços dos votos e Zuma se converter em presidente, as consequências serão graves", disse Zille.
O encerramento da campanha do ANC, neste domingo (19), em um comício lotado em Johannesburgo, contou com a presença de Nelson Mandela, que ofuscou o candidato Jacob Zuma.
A Comissão Eleitoral Independente prevê a participação recorde de mais de 20 milhões de eleitores.
ProblemasO novo presidente sul-africano vai enfrentar diversos desafios em sua gestão. A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) indica que o problema da pobreza e suas manifestações, o desemprego e o déficit no setor educacional são as maiores ameaças ao desenvolvimento econômico da África do Sul.
O Instituto Sul-Africano de Relações Raciais afirma que o número de habitantes que vive com menos de US$ 1 por dia duplicou nos últimos dez anos, o que significa mais de 4 milhões dos 48 milhões de habitantes do país, apesar de o território sul-africano ser rico em minerais e metais preciosos. O desemprego afeta mais de 50% dos menores de 24 anos.
O crescimento da pobreza se deve ao aumento do desemprego e do subemprego, que atingem cerca de 40% da população economicamente ativa, segundo estudos privados, embora a taxa oficial seja de 24%. Outro problema é a criminalidade, com média de 50 homicídios por dia - a polícia e os tribunais do país estão sobrecarregados.
Nos bairros marginais e nas zonas rurais, as escolas e os hospitais públicos carecem de recursos e funcionários qualificados, com a Aids provocando um grande estrago no país, que tem 5,5 milhões de soropositivos.
Calcula-se que cerca de mil pessoas morram por dia na África do Sul por conta da Aids, e por isso o Ministério da Saúde local iniciou um programa pelo qual 220 mil receberão tratamento antirretroviral gratuito este ano - 700 mil já contam com essa ajuda.
MAIS NOTÍCIAS INTERNACIONAIS
No entanto, segundo informa a ONG Médicos Sem Fronteiras, dirigentes do Ministério da Saúde sul-africano admitiram que faltam 76 milhões de euros (cerca de R$ 220,8 milhões) para que seus objetivos sejam conquistados.
Apesar da falta de orçamento, o ANC afirma em seu programa eleitoral que pretende reduzir o número de infectados pelo vírus em mais de 50% e fornecer tratamento a 80% dos doentes.
As infecções por HIV ocorrem em grande parte em vítimas de violações: na África do Sul ocorrem em média 500 mil agressões sexuais por ano, o que significa quase um caso por minuto.
A ONG Médicos Sem Fronteiras alerta que oito em cada nove violações não são denunciadas e que, "em algumas áreas do país, as agressões sexuais se transformaram em algo normal". O ANC assegura, por sua vez, que nos próximos cinco anos combaterá a delinquência "sendo mais duro com os criminosos e aumentando o treinamento e os salários dos policiais".
*Com informações da EFE, AFP e Folha Online