O democrata Barack Obama completa hoje cem dias como presidente dos Estados Unidos. Para especialistas ouvidos pelo
UOL Notícias, o governo de Obama chega à marca com um balanço positivo, mas com ressalvas
SÉRGIO DÁVILA E LUIZ FELIPE ALENCASTRO COMENTAM OS 100 DIAS
"Eu diria que os seis primeiros meses normalmente são um período de identificação do eleitor com o candidato eleito e Obama ainda está nessa fase, aproveitando a euforia que a sua eleição gerou. Ele fez o que era esperado", aponta o professor de ciência política da UnB (Universidade de Brasília), João Paulo Peixoto. "Os cem primeiros dias, seja nos EUA ou no Brasil, são uma marca importante, é um período em que a popularidade continua elevada e os governantes aproveitam para propor medidas de impacto, que teriam dificuldades de ser implementadas se não fossem nos primeiros dias", continua.
Em 22 de janeiro, o presidente norte-americano
ordenou o fechamento da prisão de Guantánamo e o fim dos tribunais de exceção, marcando logo nos primeiros dias de seu mandato a ruptura com as políticas da era George W. Bush. O caminho para concluir com sucesso estas ações, no entanto, será longo. Ao todo, 245 prisioneiros ainda são mantidos no centro de detenção. Obama estipulou um prazo de seis meses para que uma decisão seja tomada sobre o destino de cada um deles.
PROMESSAS MANTIDAS
| Ordem dada ao Exército de se retirar do Iraque |
| Envio de duas brigadas suplementares ao Afeganistão |
| Pronunciamento de um discurso "diante de um grande fórum muçulmano": feito diante do parlamento turco no dia 6 de abril |
| Fim das restrições ao envio de dinheiro e a viagens dos cidadãos cubano-americanos a Cuba |
| Criação de um fundo de prevenção das execuções hipotecárias. Custo previsto: US$ 5 bilhões |
| Autorizar a pesquisa sobre células-tronco embrionárias |
| Nomear republicanos para o governo |
| Dar um cachorrinho às filhas, Malia e Sasha |
- Fonte: "Obameter" - Politifact.com
Em fevereiro, também cumprindo uma de suas promessas de campanha, confirmou a
retirada da maior parte das tropas norte-americanas do Iraque e o fim da missão de combate no país até 31 de agosto de 2010, mesmo admitindo que o país não está totalmente seguro.
"O balanço é positivo no sentido de que a popularidade continua alta e ele procurou cumprir suas promessas logo de início. Só que essas medidas ainda não surtiram o efeito desejado, principalmente no campo econômico, elas ficaram aquém do que se deseja", afirma a professora de relações internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Cristina Pecequilo. "O balanço foi positivo por gerar fatos, mas, por outro lado, ele fica devendo as grandes reformas estruturais que prometeu."
Segundo o "obameter", um quadro com mais de 500 promessas eleitorais acompanhado em tempo real pelo jornal "St. Petersburg Times", o presidente manteve 27 promessas e quebrou seis.
"Esse primeiro momento é positivo, sobretudo no cenário internacional, já que Obama tem demonstrado disposição para escutar. E, finalmente, tem feito reforços de recuperação da economia, da capacidade de iniciativa norte-americana e também da recuperação da imagem do país no mundo", diz o professor de relações internacionais da USP (Universidade de São Paulo) Rafael Villa. "Nestes cem primeiros dias o governo Obama tem aproveitado para desarmar argumentos e comportamentos antigos que caracterizam a época de Bush", completa.
Aspecto econômicoA prioridade do presidente norte-americano na área econômica foi tomar medidas para enfrentar a crise financeira global. Em fevereiro, Obama assinou um plano de reativação da economia no valor de US$ 787 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhão). Porém, segundo Peixoto, as medidas tomadas estão de acordo com o que foi prometido na campanha. "Não houve nada que saísse do script", ressalta.
A gestão do presidente norte-americano é aprovada por 68% dos cidadãos de seu país, informa
pesquisa publicada nesta terça-feira (28) no jornal "The New York Times".
Ainda para Peixoto, o mérito de Obama tem sido de manter a expectativa e não deixar a coisa piorar. Os Estados Unidos continuam sendo uma grande potência, porém, no aspecto econômico, não se encontram no melhor momento e isso muda a capacidade dessa herança.
PROMESSAS QUEBRADAS
| Reconhecimento do genocídio armênio |
| Criação de uma isenção de impostos de US$ 3.000 para as empresas que criam empregos |
| Impedir "lobbystas" de trabalhar para o governo |
- Fonte: "Obameter" - Politifact.com
"Obama já estava esperando a crise, mas não tanta resistência de alguns grupos nos Estados Unidos, principalmente o partido democrata. Havia uma tentativa de fazer uma coalizão nacional e, no fim, todas as medidas têm passado por um longo processo de aprovação no Congresso", completa Pecequilo.
Brasil e América LatinaApesar de a América Latina continuar fora das prioridades de política externa norte-americana - a prioridade está voltada para a Ásia - os laços entre os Estados Unidos e os países latino-americanos têm se estreitado nestes cem dias. Dos dias 17 a 19 de abril aconteceu a
5ª Cúpula das Américas, e, poucos dias antes do evento, Obama havia
suspendido algumas restrições de viagens e remessas a Cuba.
PROMESSAS EM CURSO
| Fechamento da prisão de Guantánamo, no mais tardar no início de 2010 |
| Abolição da tortura |
| Abolição dos centros de detenção secretos no exterior |
| Redução dos arsenais nucleares |
| Dobrar a ajuda ao desenvolvimento a US$ 50 bilhões até 2012 |
| Abolição das reduções fiscais concedidas pelo governo Bush aos que tenham rendimentos superiores a US$ 250 mil por ano |
- Fonte: "Obameter" - Politifact.com
"A relação com o Brasil e a América Latina sem dúvida melhorou. A América Latina tem uma expectativa positiva, e essa expectativa se mostra, por exemplo, no fato de que os governos da Venezuela, Bolívia e Argentina, tradicionalmente críticos aos Estados Unidos, terem feito gestos que podem ser considerados amigáveis em relação aos Estados Unidos", afirma Villa.
No que diz respeito ao Brasil, Obama tem demonstrado empatia pelo colega brasileiro. Na
reunião do G20, que aconteceu dia 2 de abril em Londres, Obama afirmou que Lula "é o cara e o político mais popular da Terra". Essa empatia, entretanto, não resulta automaticamente em fatos concretos.
"Há um novo discurso cooperativo e a boa vontade dos Estados Unidos em estabelecer parceria em larga escala, mas não há algo extremamente concreto. O Brasil deseja mudanças factíveis. Obama vem pedindo paciência, diz que a reforma é gradual. Mas os países aliados já estão cansados das promessas", aponta a professora Cristina Pecequilo.
Futuro ANÁLISES DE JORNAIS INTERNACIONAIS
Para os especialistas, a euforia por conta da eleição de Obama ainda vai continuar por mais algum tempo, até que o governo entre em um ritmo normal, quando será efetivamente testado sem o apoio explícito da popularidade.
"Depois de seis meses de euforia, acho que entra em um ritmo normal, que aí ele será realmente testado, enfim, quando 'cair a ficha', daí ele vai ter que demonstrar quem ele é. Por enquanto, tem desafios pela frente, como a questão da retirada das tropas do Iraque, a relação com o Afeganistão", afirma Peixoto.
"Você pode colocar mais uns cem dias. Esse ano ele ainda vai ter carta branca até outubro, novembro. À medida que a crise comece a se recuperar, as promessas não cumpridas vão aparecer mais", opina Pecequilo.