UOL Notícias Internacional
 

27/09/2009 - 06h57

Toque de recolher em Honduras obriga cidadãos a reorganizarem sua rotina

Thiago Scarelli
Enviado especial do UOL Notícias
Em Tegucigalpa (Honduras)

Novo representante brasileiro diz que há furtos dentro da embaixada

Em entrevista ao enviado especial do UOL Notícias, o diplomata brasileiro Lineu Pupo de Paula, que desde ontem (dia 26) é o representante brasileiro na embaixada em Tegucigalpa (Honduras), contou que a situação de higiene no local está melhor do ele imaginava, mas que já estão ocorrendo furtos entre as muitas pessoas que ocupam o edifício nesse momento.

São 17h30 da tarde de um sábado de garoa em Tegucigalpa. O tráfego de carros é intenso e podem ser vistos ônibus amarelos abarrotados de gente pelas principais ruas da capital. Na saída de um shopping center, hondurenhos se apertam para se proteger da chuva fina enquanto aguardam uma condução. Sente-se no ar um sentimento inquieto. Menos de uma hora depois, não há mais um carro na rua. Neste sábado, 26 de setembro, ninguém foi ao cinema para a sessão das dez.

O motivo foi explicado pelos rádios e televisões hondurenhos, em cadeia nacional. "O presidente da República ao povo hondurenho comunica o seguinte: para garantir a paz e a ordem pública no país, e devido aos chamados à insurreição feitos de forma pública pelo senhor Manuel Zelaya Rosales, decidiu estabelecer o toque de recolher em todo o território nacional desde a seis da tarde deste sábado, 26 de setembro do ano em curso, até a seis da manhã do domingo, 27 de setembro."

A mensagem, lida por uma voz oficialesca sobre um ritmo latino salsando ao fundo, acrescenta: "Pedimos compreensão, paciência e colaboração com esta medida, que se toma com o único objetivo de proteger a tranquilidade, a vida e os bens".

  • Thiago Scarelli/UOL

    Mulher atravessa barreira de soldados próxima da embaixada brasileira em Tegucigalpa

O toque de recolher deste sábado veio um pouco mais cedo, mas não foi o primeiro; a instabilidade política do país nos últimos três meses obrigou as pessoas a se habituarem com uma autoritária limitação dos direitos individuais.

"Eu provavelmente estaria no cinema ou em algum restaurante agora", me conta a brasileira Elisa Vieira, às 20h30 deste sábado.

"Toque de recolher também é tortura"

  • Para Carmen Martinez, psicóloga e membro do Centro de Prevenção, Tratamento e Reabilitação das Vítimas de Tortura, submeter pessoas ao toque de recollher pode ser entendido como tortura. Em espanhol

A veterinária que mora em Tegucigalpa recorda que no começo da semana a situação foi ainda mais grave. "Foi muito incômodo, principalmente nos dias em que o toque de recolher foi o dia todo. Ninguém saiu para trabalhar, não pudemos comprar comida, ir ao mercado, o dia todo".

"Por um lado sabemos que é para evitar a violência, mas tem momentos em que a gente não aguenta mais ficar trancado em casa", explica ela.

Durante o período de vigência do "toque de queda", fica suspensa uma parte dos direitos civis, como o direito de ir e vir e o direito de livre associação. Na prática, significa que as pessoas que estiverem na rua nesse período podem ser presas ou ter o carro confiscado sem maiores explicações. Para o governo interino, a medida tem o objetivo de impedir que grupos fiéis a Zelaya queimem carros e assaltem casas - ou conduzam o presidente deposto de volta ao poder. Não se sabe ao certo quantas pessoas já foram detidas em Honduras nessas condições.

Passear no shopping, até as 18h

Trabalho reduzido

  • Atendente Leslie Velazquez, 26, volta para
    casa antes do expediente normal terminar

Enquanto de um lado da cidade jovens militares fardados ficam em pé para cercar a embaixada brasileira, em outro canto jovens muito parecidos vestem jeans para passear na praça de alimentação do Mall Multiplaza, rigorosamente igual a qualquer outra que estivesse em um shopping brasileiro. A diferença é que estes terão que ir para casa mais cedo.

"Está fechado, senhor", me explica Leslie Velazquez, 26, atendente do "Tropical Sno", onde se poderia tomar um suco. "Normalmente trabalharíamos até as 21h, mas ainda precisamos voltar para casa, antes do toque de recolher".

Aproveito que a portinha do Pizza Hut ainda está aberta. "Sim, existem muitas perdas com esse toque, claro", dizia a gerente. O funcionário Alex Mendoza tinha outra preocupação: "As empresas tem prejuízos, mas quando percebem que não dá mais, só fecham as portas e procuram outro lugar. Elas aguentam. Mas meu emprego, como fica?"

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