Que medidas o Brasil deveria adotar em relação ao presidente deposto?
Uma comissão ligada à Associação de Industriais de Honduras apresentou uma nova proposta para superar o impasse político entre os grupos ligados ao presidente golpista Roberto Micheletti e os apoiadores do deposto Manuel Zelaya. Para os industriais, a solução seria restituir Zelaya na presidência, mas destituído de poder. As decisões caberiam a um conselho de ministros até a posse do futuro presidente que seja eleito nas votações de 19 de novembro.
Em conversa com o
UOL Notícias, o presidente da associação e autor da proposta, Adolfo Facussé, contou que se trata de uma solução hondurenha, livre da ingerência externa, e afirmou que Micheletti já teria se manifestado a favor dessa alternativa.
Veja a cronologia da crise
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Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
UOL Notícias: Qual o caráter da proposta que o senhor apresentou?
Adolfo Facussé: Basicamente, a única saída que tinha sido apresentada era o Acordo de San José, que está parado e não está resolvendo o problema. Quando um grupo formado entre membros da Associação de Industriais de Honduras analisamos por que este acordo não tinha sido aceito, chegamos à conclusão de que o povo de Honduras, a maioria, não acredita que o acordo seria cumprido por Zelaya. Ele assinaria qualquer coisa, e chegando novamente à presidência poderia causar graves problemas.
Há muita desconfiança em relação ao senhor Zelaya, e isso não é só uma suposição, mas tem base nas declarações que ele faz. Então, um problema da proposta de San José é que não há quem garanta o cumprimento do acordo. A comissão de verificação [prevista no acordo] pode verificar que Zelaya não está cumprindo o acordo e nada aconteceria. Por isso, o primeiro ponto da nossa proposta é que um grupo de nações amigas nos ajude com uma missão internacional de soldados capaz de garantir que o acordo seja cumprido. Propusemos Colômbia, Panamá, Canadá, mas poderiam ser outros países.
UOL Notícias em Tegucigalpa
O passo número dois é integrar um conselho de ministros com pessoas nomeadas pelos partidos políticos com base na proporção de voto das últimas eleições. Esse conselho de ministros seria o detentor real de poder na transição.
Micheletti renunciaria e voltaria a ser presidente do Congresso, assim como no acordo de San José, mas Micheletti disse: "isso não é permitido pela lei, mas estou disposto a renunciar e vou para casa".
Então se restitui o presidente Zelaya como presidente e, no mesmo ato, um juiz emite a ordem de detenção pelos delitos dos quais é acusado. Há delitos políticos, há delitos comuns. A anistia diz respeito aos delitos políticos, e ele teria que se defender dos delitos comuns, mas propomos prisão domiciliar. Ficam restritas as capacidades de Zelaya, e o poder fica com o conselho de ministros.
Finalmente, damos ênfase às eleições presidenciais de 29 de novembro.
Honduras recua do ultimato dado ao Brasil
O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, recuou na quarta-feira do ultimato que havia imposto ao Brasil para decidir o destino do presidente deposto Manuel Zelaya, refugiado na embaixada brasileira em Tegucigalpa desde que voltou clandestinamente do exílio, há mais de uma semana.
UOL Notícias: Essa proposta já foi apresentada a Micheletti e a Zelaya?
Adolfo Facussé: Veja, nós não temos acesso ao ex-presidente Zelaya, porque está recluso na embaixada brasileira, há um cerco policial que só deixa passar missões que levam comida etc. Apresentamos ao presidente Micheletti, e ele disse que estava de acordo e então entregamos ao bispo [auxiliar da diocese de Tegucigalpa] Juan José Pineda, que é a única pessoa que vai de Micheletti a Zelaya, para que lhe entregue a proposta. Para nós, é uma maneira de quebrar o gelo e que o diálogo seja feito entre hondurenhos, que paremos de esperar que mediadores de fora, a ONU, a OEA, resolvam o problema. Agarremos o touro pelo chifre e sentemo-nos, dialoguemos, resolvamos a situação nós mesmos. A proposta pode ser melhorada, mas pelo menos o diálogo já terá começado.
UOL Notícias: Esse plano é uma proposta de caráter pessoal do senhor ou de uma classe?
Adolfo Facussé: A proposta foi preparada por um grupo de membros da associação de industriais, reunidos em uma comissão especial, eu a apresentei, mas não é uma questão pessoal. Os industriais estão apoiando a proposta. Mas o importante não é a proposta em si, mas que existe um grupo de hondurenhos dizendo: "sentemo-nos e dialoguemos nós mesmo". Se esperamos a mediação, o senhor [Óscar] Arias, o tempo vai passando e pode ser que a situação piore. Estamos entrando em violência, o governo lançando medidas para reprimi-la. Queremos evitar esse via crucis.