Sim, não, talvez, não, sim e, no término, um peremptório não. Foram essas as respostas que as projeções e, mais tarde, as autoridades uruguaias deram sobre o resultado do plebiscito que anularia a lei de proibição para o Estado investigar crimes cometidos pela ditadura. No fim das contas, 52,64% dos uruguaios que votaram no domingo (25) rejeitaram a medida e, civilizadamente, enterraram o fantasma.
ELEIÇÕES NO URUGUAI

Luis Lacalle comemora ida ao segundo turno
As primeiras projeções depois do fechamento das urnas diziam que a anulação da lei seria aprovada. Quase uma hora depois, as mesmas já afirmavam que não. Depois, surgiu dúvida nos analistas que falavam na televisão, uma vez que os votos brancos e nulos ainda não tinham sido computados. Acabaram cravando mais tarde que o resultado era a vitória do não, levando os presidenciáveis que disputarão o segundo turno, o ex-guerrilheiro José "Pepe" Mujica e o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, a dar declarações sobre o assunto. Parecia fatura liquidada.
Mas nesta segunda-feira uma autoridade da Corte Eleitoral do Uruguai disse a jornalistas que uma reviravolta tinha ocorrido. As redes de televisão se apressaram para colocar o resultado anunciado em dúvida. Horas depois, o mesmo oficial corrige o engano: tinha visto a votação de Montevidéu, e não a do país inteiro. É reafirmada a derrota da anulação da chamada "Ley de Caducidad", pela qual a esquerda uruguaia militou e que causaria um longo processo de revisão histórica.
"Para nós não muda muito", disse a jornalistas o coordenador da campanha pela anulação da lei, Óscar López Goldaracena. "Essa é uma lei inconstitucional e o Uruguai já sofre críticas de vários organismos internacionais por conta dela. A luta contra esse instrumento vai continuar, como teria de continuar se o plebiscito tivesse dado aprovação à anulação de qualquer maneira."
O advogado afirmou que o direito internacional determina que a ditadura civil-militar entre 1973 e 1985 cometeu crimes contra a humanidade. Analistas locais atribuem o resultado em parte à vitória política de Pedro Bordaberry, presidenciável do Partido Colorado que terminou com 16,66%, e filho do ex-ditador Juan María Bordaberry.
Reação mistaOs dois finalistas da eleição presidencial uruguaia tiveram reações mistas sobre o resultado. Mujica, ex-guerrilheiro do grupo Tupamaro, que passou 14 anos preso acusado de crimes como sequestros e assaltos, criticou o fato de o plebiscito ser realizado junto das eleições gerais e disse que o assunto "não está encerrado". Já Lacalle considerou que "o resultado se respeita, o Uruguai falou".
Na frente da sede do Partido Blanco (centro-direita), o advogado Ricardo Cuevas, 34, votou pela rejeição da anulação da lei. "Se continuarmos perdendo tempo como o nosso passado, não poderemos olhar para o futuro. Aos poucos o Uruguai está melhorando e entrar retomar essa fase de perseguição e de revisão histórica nos atrapalha na ideia de retomar um bom crescimento econômico", afirmou.
Já o militante esquerdista Luis Puig, 32, lamentou o resultado que "consagra a a impunidade dos terroristas de Estado". "A luta pelos direitos humanos é uma luta permanente e seguirá vários caminhos. Queremos essa revisão para que nunca mais haja ditadura nem terrorismo de Estado."
O outro plebiscito votado no domingo, que decidia se os uruguaios no exterior poderiam participar das eleições, também foi rejeitado.