UOL Notícias Internacional
 

09/11/2009 - 18h02

Ameaça de guerra de Chávez deve ser tratada pela Unasul, dizem especialistas

Silvana Salles
Do UOL Notícias
Em São Paulo
As declarações feitas pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, pedindo que a população de seu país se preparasse para uma guerra a fim de garantir a paz na região, foi interpretada como uma ameaça explícita pelo governo da Colômbia. Mas para analistas, o atual atrito entre os países vizinhos deve ser encarado como uma troca de acusações entre Bogotá e Caracas, que poderá receber a mediação da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e dificilmente se converterá em uma guerra real.

"Não percamos um dia em nossa principal missão: preparar-nos para a guerra e ajudar o povo a se preparar para ela, porque é responsabilidade de todos", disse Chávez, em seu programa oficial de TV no último domingo (8). A Venezuela "congelou" as relações diplomáticas com a Colômbia após a assinatura do acordo militar que prevê a utilização de pelo menos sete bases militares em território colombiano. Chávez e líderes de outros países da América do Sul, entre eles o Brasil, temem que as bases sejam usadas pelos Estados Unidos para planejar ações em territórios vizinhos.

Após a declaração, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, disse que pretendia levar a "ameaça" de Chávez à ONU (Organização das Nações Unidas) e à OEA (Organização dos Estados Americanos).

Para Paulo Edgar Resende, coordenador do Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), o cenário mais plausível que deve se desenrolar a partir das declarações de Hugo Chávez não é de conflito armado, mas de mediação da Unasul - particularmente do Brasil - na crise diplomática.






"O discurso de Chávez sempre radicaliza situações. Ele usa um termo de guerra, e talvez nós pudéssemos buscar um sinônimo mais ameno", disse Resende.

"[Essas declarações] tem que ser entendidas como algo natural por conta da posição do Chávez em relação às bases militares e a necessidade de uma postura mais agressiva dele em relação à Colômbia", comentou a cientista política Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"), em Marília (SP).

"Tratando-se de questões diplomáticas, as declarações podem ser manipuladas conforme o governo de cada país deseje", disse. "Da mesma forma como a Venezuela se incomodou com o acordo militar com os EUA, a Colômbia se sente incomodada com as declarações do Chávez."

Além do desentendimento causado pelas bases militares, Colômbia e Venezuela vem enfrentando tensões na região da fronteira, área ocupada por guerrilheiros, paramilitares e narcotraficantes.

O distanciamento de Colômbia e Venezuela tem dois fatores, conforme apontado pelos especialistas em relações internacionais: o alinhamento automático de Bogotá com os Estados Unidos a partir do Plano Colômbia, criado para combater o narcotráfico no país em 2000; e a chegada de Chávez ao poder em Caracas, em 1999. Contrário à intervenção americana na região, da qual Álvaro Uribe se beneficia, Chávez propõe um resgate da proposta de Simón Bolívar, herói da independência dos dois países, que imaginava uma forte integração para a América espanhola.

Cristina Pecequilo lembra que, antes da eleição do líder venezuelano, não havia tensões entre os dois países na mesma medida porque a Venezuela era muito alinhada com os EUA - o mesmo acontecia com a Bolívia, hoje mais ligada a Caracas do que a Washington.

A "aproximação sem reservas" entre Bogotá e Washington também demonstra que Colômbia é o país menos comprometido na América do Sul com o projeto da Unasul, que pretende reunir os integrantes da Comunidade Andina e do Mercosul em um único bloco econômico e político. A proposta é endossada pelo Brasil.

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