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14/02/2007 - 07h56
Mangueira leva história da Língua Portuguesa à Sapucaí

Carla Mendes, da Agência Lusa

Rio de Janeiro, 14 Fev (Lusa) - A Mangueira promete dar uma verdadeira aula de Português em verde e rosa na Sapucaí, com um samba-enredo dedicado à Língua Portuguesa no desfile deste ano das escolas de samba do Rio de Janeiro.

"O samba-enredo da Mangueira está na boca do povo e é considerado o melhor deste Carnaval. Vamos fazer um belo e rico desfile sobre a história da Língua Portuguesa e esperamos que a Mangueira seja mais uma vez aclamada", disse à Agência Lusa o presidente da escola, Percival Pires.

Intitulado "Minha pátria é minha língua, Mangueira meu grande amor. Meu samba vai ao Lácio e colhe a última flor", o enredo da tradicional escola vai falar sobre todas as influências que o idioma sofreu até chegar à atual versão brasileira.

É certo que o Português não é a "última flor do Lácio", região central da Itália, como escreveu o imortal poeta Olavo Bilac. A última língua derivada do latim é o romeno, mas esta classificação só foi feita no século 20 e, portanto, não se sabia disso na época de Bilac.

Do Lácio, que será representado por um monumental carro abre-alas com referência ao Império Romano, o enredo passeia pelo período das grandes navegações e mostra a chegada do idioma português ao Brasil nas caravelas de Pedro Álvares Cabral.

A língua de Camões recebeu no Brasil, primeiramente, a influência de línguas indígenas, como o tupi guarani e o tupinambá, e depois das de escravos africanos, como o banto e o iorubá.

"A nossa Língua Portuguesa/ Se misturou com o tupi, tupinambrasileirou/ Mais tarde o canto do negro ecoou/ E assim a língua se modificou", diz o samba-enredo da Mangueira, que promete levantar as arquibancadas no desfile do grupo especial das escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro na noite do próximo domingo.

A apresentação vai exaltar também a Semana de Arte Moderna de 1922, que representou uma renovação da linguagem e uma ruptura com a perfeição estética do século 19.

Imortais

A Mangueira vai levar à avenida cinco imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL) - Ivan Junqueira, Domício Proença Filho, Antônio Olinto, Nelson Pereira dos Santos e Marcos Vilaça, presidente da instituição.

Os acadêmicos irão desfilar em um carro especial ao lado dos 22 imortais da Academia Mangueirense do Samba, formada por personalidades que fizeram a história da escola.

"Milhares de brasileiros, portugueses, africanos e integrantes da comunidade lusófona, nas arquibancadas, nas telas de TV e via Internet terão sua emoção mobilizada na direção do idioma comum, elo de identificação e de aproximação", declarou recentemente o acadêmico Domício Proença Filho.

A comissão de frente da escola vai realizar ainda uma homenagem bem-humorada a Portugal, segundo o dançarino Carlinhos de Jesus, que revelou ter no figurino dos 15 componentes da ala tecidos e bordados feitos na região lusa do Minho.

"A dança portuguesa também estará presente na nossa coreografia", acrescentou.

Museu da Língua Portuguesa

Segundo o presidente da Mangueira, Percival Pires, a idéia de trazer para a passarela carioca do samba a história da língua portuguesa surgiu durante uma visita ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

"Isso foi em março do ano passado. Estávamos cheios de problemas, com muitas promessas, mas nada de concreto, sem definição ainda sobre o samba-enredo, e, então, em uma visita que fizemos ao Museu da Língua Portuguesa, um jornalista sugeriu este tema", contou Percival Pires à Agência Lusa.

Falta de apoio

O presidente da Mangueira lamentou que a escola que "traz Lisboa para a Sapucaí", como diz o samba-enredo, não tenha recebido nenhum apoio das autoridades e empresas portuguesas.

O conselheiro cultural da embaixada de Portugal e diretor do Instituto Camões no Brasil, o pianista Adriano Jordão, disse à Agência Lusa que, pessoalmente, ficou "muito desapontado" por não ter conseguido esse apoio.

"Fiquei muito sensibilizado com o samba-enredo. Gostei muito do texto e acho que é útil para Portugal, porque é um fenômeno popular de difusão da língua portuguesa. Infelizmente, não tivemos êxito na hora de obter patrocínios", afirmou.

"Desfile grandioso"

O carnavalesco da Mangueira, Max Lopes, primeiro artista de cultura popular a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Belas Artes, promete, entretanto, um desfile grandioso.

Com um orçamento de cerca de R$ 7 milhões, a Mangueira, que já ganhou 18 títulos, o último em 2002, será a terceira escola a desfilar no domingo e apresentará oito carros alegóricos, alguns com mais de 70 metros de extensão.

Os quatro mil componentes da escola prometem soltar a voz para cantar o samba-enredo que exalta Camões, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, e faz da Sapucaí uma casa portuguesa: "Vem no vira da Mangueira vem sambar/ Meu idioma tem o dom de transformar/ Faz do Palácio do Samba uma casa portuguesa/ É uma casa portuguesa com certeza/".

Atualmente, o Português é falado por cerca de 250 milhões de pessoas no mundo e é língua oficial dos oito integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) - Portugal, Brasil, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

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