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19/03/2008 - 14h45
Jornalista que anunciou guerra há 5 anos fala sobre Iraque

Por Carla Mendes, da Agência Lusa

Brasília, 19 mar (Lusa) - Cinco anos depois de anunciar ao vivo, no canal de televisão português RTP, o início da invasão norte-americana no Iraque, o jornalista português Carlos Fino considera que ainda está por vir o balanço da administração do presidente George W. Bush.

Primeiro repórter do mundo a anunciar o início dos bombardeios em Bagdá, na madrugada de 20 de março de 2003, Carlos Fino é, atualmente, conselheiro de imprensa da embaixada de Portugal no Brasil.

"O que constato, como observador, é que essa política da guerra contra o terror não só se consolidou na prática da administração norte-americana, como também na filosofia de atuação, e suscitou, igualmente, resistências e adaptações", assinalou o ex-correspondente da RTP.

Na sua avaliação, duas tendências estão em jogo - o uso da força para combater o terror e o reforço do Estado de Direito, com medidas de maior justiça, equilíbrio social e de mais diálogo para encontrar soluções.

"O jogo não está fechado e depende muito do que se passa na sede da única potência mundial que temos hoje. Se ganharem as forças que até agora têm definido essa linha [da administração Bush], continuaremos a ter a guerra ao terror, mas pode ser que haja uma mudança em Washington", acredita Fino.

O jornalista destacou que até os Estados Unidos defendem uma solução que passa por um entendimento político amplo dentro do Iraque e pela progressiva saída das tropas estrangeiras, negociada com as novas autoridades iraquianas para evitar a anarquia e o terrorismo.

"Por outro lado, um dos candidatos à Casa Branca fala na permanência das tropas no Iraque por mais cem anos", acrescentou.

O ex-correspondente da RTP lembrou que também a 2ª Guerra do Golfo teve implicações globais, como a divisão da Organização das Nações Unidas (ONU), da Otan, manifestações por todo o mundo e a adoção de medidas de segurança mais rígidas, como o maior controle nos aeroportos.

Na sua opinião, não se pode deixar de dar algum crédito às reações norte-americanas suscitadas pelo 11 de setembro, porque há um problema sério de segurança internacional que precisa ser encarado.

"Resta saber se essa estratégia de acentuar os aspectos de força é a mais adequada para combater esse fenômeno", afirmou, citando críticos portugueses dessa política, como o general Loureiro dos Santos e o sociólogo Boaventura de Sousa Santos.

Para Carlos Fino, os defensores da guerra contra o terror querem que ela se instale na política mundial um pouco como se instalou a luta contra o comunismo, marcando toda uma época.

Questionado sobre a posição da União Européia neste contexto, o jornalista disse que o bloco nunca se posicionou como um pólo de contraponto a esse paradigma, embora os franceses tenham defendido a idéia.

"A União Européia é uma potência comercial, mas não militar. Há uma tendência dentro do bloco de salientar mais os aspectos dos direitos humanos, das questões de justiça, de equilíbrio social e defesa do meio ambiente. Mas o que predomina é a ligação com os Estados Unidos", observou.

Fino citou ainda uma frase conhecida nos meios jornalísticos: "A relação entre Estados Unidos e Europa é como a música de Wagner - não é tão má como parece à primeira vista".

No entanto, o ex-correspondente de guerra acredita que "muitos líderes europeus, à noite, rezam para que alguma coisa mude em Washington".

"E depende muito disso, porque os outros Estados, que não estão ligados a este paradigma da luta contra o terror, os países emergentes, como Brasil, China, Índia, África do Sul, todas as movimentações de opinião, as ONGs, os fóruns de Porto Alegre e do mundo não parecem suficientes para alterar essa situação", acrescentou.

Carlos Fino nota também que a maior preocupação hoje em alguns Estados norte-americanos não é com a guerra do Iraque, e sim com a economia.

"Talvez não se faça na opinião pública uma ligação direta entre os bilhões de dólares gastos no Iraque e a situação econômica no país; entre a guerra e o aumento do preço do petróleo", explicou.

Outro aspecto a considerar, que é diferente do ocorrido na guerra do Vietnã, é o fato de o conflito no Iraque ser travado por um corpo de militares voluntários e contratados por empresas privadas de segurança, que assumem os riscos.

"Esse tipo de atuação parece ser mais imune a críticas por parte da generalidade do público", comentou Fino.

Em seu escritório atual, na embaixada portuguesa em Brasília, uma foto sua, tirada em frente a um tanque de guerra em Bagdá, traz-lhe lembranças dos três meses que passou na linha de frente.

"Logo na entrada das tropas norte-americanas, constatamos que as forças implicadas não eram suficientemente grandes para contornar toda a situação. Por outro lado, parece não ter havido um plano de ação bem definido para o day after", observou o jornalista.

Fino recordou ainda alguns acontecimentos que marcaram seu trabalho de correspondente no Iraque, reconhecido internacionalmente.

Um deles foi o disparo de um tanque norte-americano contra o Hotel Palestina, na capital iraquiana, onde estavam abrigados os correspondentes estrangeiros.

"Senti muito aquele tiro. Bastaria um pequeno ângulo diferente do canhão para que fôssemos nós [a morrer], e não os meus dois colegas de trabalho que estavam dois pisos abaixo".

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