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20/07/2008 - 17h26

Lusos que lutaram nas guerras coloniais vão parar nas ruas

Lisboa, 20 jul (Lusa) - A Associação Combatentes do Ultramar Português (ACUP) estima que duas centenas de ex-militares que lutaram nas guerras coloniais na África vivam hoje nas ruas de Portugal.

"A nossa luta é conseguir que os mais desamparados tenham abrigo e afeto no final de suas vidas", disse à Agência Lusa o presidente da ACUP, José Nunes, durante uma visita ao centro de reinserção social da Comunidade Vida e Paz na cidade de Sobral de Monte Agraço, distrito de Lisboa, onde estão 15 ex-combatentes tirados das ruas.

José Nunes defendeu a criação de estruturas de apoio social e de lazer para os antigos combatentes, principalmente os "mais desprotegidos e abandonados socialmente", com idades entre 58 e 65 anos.

"Depois da recuperação, eles não têm para onde ir e voltam para a lama", frisou, adiantando que muitos "morrem abandonados e, por vezes, nem têm uma peça de roupa para levar para a sua sepultura".

O presidente da associação apelou ao governo português para que crie uma unidade de apoio aos centros de recuperação.

A ACUP também já iniciou contatos com a Associação Nacional de Municípios (ANMP), para que as prefeituras identifiquem ex-combatentes vivendo nas ruas das cidades portuguesas e que sofram de estresse pós-traumático.

Na semana passada, o Ministério da Defesa de Portugal e a ACUP reviram o protocolo de apoio a militares ativos e aposentados que sofrem do problema.

Na altura, o vice-ministro português da Defesa, João Mira Gomes, afirmou que a revisão do protocolo visa "criar condições para que a ACUP possa ter mais meios para o apoio" aos antigos combatentes, em especial para os sem-teto.

Novas batalhas

Henrique, Eduardo e Francisco sobreviveram à guerra colonial. Três décadas depois, se encontraram na Comunidade Vida e Paz, onde tentam reconstruir a vida perdida nas ruas do álcool e das memórias de combates.

No dia 17, fez um ano que Henrique Castro entrou para o centro de reinserção social da Comunidade Vida e Paz, pondo fim a seis anos nas ruas de Faro, sul de Portugal, em que sua companhia diária foram "pacotes de vinho".

Com uma voz pousada e olhar cabisbaixo, Henrique Castro, 59 anos, recordou com amargura esses tempos que o separaram da família, falou do sonho de reatar a relação com a mulher e do que mudou na sua vida desde que entrou para a instituição.

"Aqui encontrei uma família", contou à Agência Lusa o ex-militar que lutou em Angola entre 1970 e 1973 e cujas imagens da guerra ainda o acompanham, mas já de uma forma mais tênue.

Os dias de Henrique na comunidade são ocupados fazendo pinturas em tecido - "antes pintava automóveis e eletrodomésticos" - e pensando na carta de amor que vai escrever à mulher para a pedir de novo em casamento, depois de já ter reconquistado a amizade dos dois filhos.

"Sobrevivi a uma guerra e agora tenha outra pela frente: conquistar a minha mulher e retomar a minha vida perdida há 14 anos".

O percurso de Henrique assemelha-se ao de Eduardo, 57 anos, que também combateu em Angola e teve a vida arruinada pelo alcoolismo.

"Já bebia antes de ir para a guerra", contou o homem magro e com o rosto marcado pelo sofrimento.

"Não sei como vim parar à comunidade e já cá estou há quatro anos. Se não fosse isto, já estava morto", disse Eduardo, enquanto dava os últimos retoques em uma jarra de barro na olaria, onde trabalha diariamente.

De vez em quando, Eduardo visita os amigos na Alfama, o bairro de Lisboa onde nasceu. A irmã é o familiar mais próximo que tem, mas já não a vê há 10 anos.

O combate na Guiné-Bissau entre 1972 e 1974 deixou marcas profundas em António Pereira, 57 anos. "É o sistema nervoso", comentou, contando que teve de abandonar um tratamento de desintoxicação de álcool porque não conseguia agüentar o barulho dos aviões passando por cima do hospital Júlio de Matos. "Aqui é mais sossegado".

Os dias de António são passados lidando com a roupa dos moradores da Vida e Paz, mas já tem em vista um emprego em Lisboa.

"Já fui a uma entrevista de emprego em Lisboa para motorista através do centro", disse, enquanto esboçava um sorriso de orgulho.

Sentado sob o sol intenso, Arnaldo Silva fumava calmamente um cigarro de enrolar e observava o trabalho dos companheiros. É a terceira vez que está na Comunidade Vida e Paz se recuperando do vício do álcool.

Aos 61 anos, o ex-militar que lutou na guerra em Moçambique já não tem sonhos, ao contrário de seus companheiros. Sabe que quando sair do centro vai voltar para a rua.

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