Por Ricardo Bordalo, da Agência LusaMaquela do Zombo, Uíge (Lusa) - Centenas de congoleses residentes em Maquela do Zombo, província angolana do Uíge, vivem normalmente apesar de este município, na fronteira com a República Democrática do Congo (RD Congo, ex-Zaire), ser dos que concentra maior número de expulsos do país vizinho.
A maioria dos congoleses em Maquela do Zombo, vila que tem pouco mais de cinco mil habitantes, tem como atividade o comércio.
Em suas lojas vendem de tudo, desde a cerveja trazida do outro lado da fronteira até aos brinquedos mais diversos.
N'Gango Michel está há seis anos em Maquela do Zombo e não tem nada a apontar aos angolanos, "pelo contrário", com eles comunica na mesma língua, o Kikongo, com eles faz negócio e com eles ganha a vida para alimentar mulher e dois filhos.
"Não estou com medo. Sempre fiz a minha vida normal e honestamente e os angolanos são meus amigos. Não receio vinganças pelo que se está a passar no meu país", disse.
A Maquela do Zombo, terra de cinco fronteiras com a RDC, a cerca de 50 quilômetros de Kimbata, chegam diariamente, em média, 600 angolanos expulsos do país vizinho por decisão das autoridades de Kinshasa, aplicada desde segunda-feira. A vila está com a infra-estrutura saturada e tenta garantir o mínimo às mais de duas mil pessoas ali concentradas.
Os angolanos que chegam desamparados a Maquela do Zombo vêm majoritariamente de Kwilungongo, mas também de Kimpango, duas das pequenas cidades de maior concentração de angolanos na RDC, e entram principalmente pelas fronteiras de Kimbata, M'banza Nsosso e N'Sabango.
Depois de uma primeira concentração junto à fronteira, especialmente em Kimbata, onde chegam a ter de dormir dois dias ao relento, os angolanos expulsos da RDC são transportados para Maquela do Zombo onde as tendas disponibilizadas pelas Forças Armadas são já insuficientes.
Em caminhõeses e pequenos ônibus preparados para trilhar as difíceis estradas da região, mulheres com filhos pequenos, idosos e homens que nasceram no Congo ou para ali foram há décadas dão os primeiros passos num país que, como explicou Mafuani Albertina, expulsa de Kimpango, a polícia congolesa lhes "recordou que era o seu", Angola.
Albertina partilha uma tenda militar com "muita gente", a maior parte da sua família, mas não tem a certeza de quantos lá dormem.
Enquanto prepara uma refeição numa fogueira com escasso vigor para a fome firme de quem aguarda, Albertina contou à Agência Lusa, num português suficiente para se comunicar, que passou os últimos 20 dos seus 42 anos na RD Congo, como comerciante.
Refugiada da guerra de Angola, o regresso ao país "sempre foi um desejo" sucessivamente adiado, e por isso não o lamenta. Mas confessa que não sabe como recomeçar a vida a partir do zero.
Com três filhos, espera agora partir para a cidade do Uíge, onde tem família e não espera que, agora que teve de sair, lhe falta o apoio "para os primeiros passos" por parte das autoridades angolanas.
"Já não era possível ficar no Congo. A polícia e os serviços de estrangeiros estão a correr todas as localidades em busca de angolanos para lhes dizer que devem sair imediatamente", descreveu Albertina, destacando que "eles(a polícia) são duros mas não estão a fazer mal aos angolanos".
Antes de regressar à cidade do Uíge, Albertina tem pela frente alguns dias de espera até que a logística prometida pelo governo de Luanda esteja afinada e, com convicção e ironia diz: "Vou-me entender com os meus compatriotas congoleses que fazem comércio em Angola".
O local onde estão montadas as tendas para acolher os angolanos expulsos da RDC fica a menos de dois quilómetros da Maquela do Zombo.
Para responder às necessidades imediatas, a delegação local do Ministério da Assistência e Reinserção Social (MINARS) está a colocar no terreno "tudo o que tem", garantiu Helena Antunes Ferraz, a diretora provincial.
Só que "tudo o que tem" é pouco, frisou Antunes, explicando que enquanto o plano definido pelo governo não chega em toda a sua dimensão, estão a ser feitos apelos a todos, incluindo ONGs e empresários, para disponibilizarem aquilo que for possível.
"Neste momento estamos longe de poder satisfazer as necessidades destas pessoas", admitiu a diretora provincial do MINARS, lembrando que as pessoas "continuam a chegar" e "ninguém sabe quantas vão ser e por quanto tempo vão continuar a chegar".