Por Pedro Rosa Mendes, da Agência LusaParis, 14 out (Lusa) - O episódio do emigrante português encontrado morto em casa, em Paris, é "chocante e trágico", afirmou o embaixador de Portugal, Francisco Seixas da Costa, à Agência Lusa.
Também a comunidade de Beauregard, Poissy, Yvelines, na periferia oeste de Paris, reagiu em choque à "solidão total" do emigrante português encontrado segunda-feira, conforme testemunhos recolhidos pela Lusa no local.
José Gomes de Macedo, de 62 anos, que vivia há oito anos em Beauregard, teria morrido há dois anos, mas apenas esta semana foi encontrado.
"Este foi o momento mais chocante de toda a minha vida diplomática de mais de 30 anos", admitiu o embaixador de Portugal em Paris, que recebeu a notícia na noite de terça-feira.
Seixas da Costa acrescentou que "não estava preparado" para receber a notícia da descoberta do corpo de José Gomes de Macedo, sozinho e "literalmente mumificado", como descreveram os bombeiros de Poissy.
"Coloquei-me, pela primeira vez, num limbo de tragédia que é a situação em que tudo aconteceu", afirmou o diplomata.
IdentificaçãoO corpo do emigrante português foi encontrado pelos bombeiros sentado em uma cadeira, afirmou à Agência Lusa, no local, um dos habitantes do prédio.
"Pode ter sido o coração. O homem estava sozinho, sentou-se, talvez tenha bebido um bocado", comentou um vizinho.
"Ele era um homem discreto. Falava pouco e ouvia mal", acrescentou o mesmo homem, emigrante de origem magrebina "habituado a trabalhar com outros portugueses" e que não quis ser identificado.
Por meio do número de série da prótese auditiva as autoridades identificaram o corpo de José Gomes de Macedo, segundo fonte oficial consular portuguesa em Paris.
José Gomes Macedo, aposentado da construção civil, era natural de Vila Verde, na região de Braga, onde ainda reside a sua ex-mulher, com quem continuava casado legalmente.
O emigrante português vivia num prédio de renda subsidiada, num bairro "de muitos emigrantes mas onde as pessoas, apesar de tudo, ainda se conhecem de vista", afirmou à Lusa a dona de uma pastelaria próxima do prédio onde vivia o emigrante português.
A intervenção dos bombeiros aconteceu após um alerta anônimo feito na noite de domingo para segunda-feira a partir de uma cabine telefônica.
DúvidasSegundo os bombeiros, José Gomes Macedo estaria morto há dois anos, sem ninguém entrar no seu apartamento, apesar do cheiro de decomposição que os vizinhos denunciaram há vários meses.
"Nunca demos por nada nem desconfiamos de nada. O senhor era um homem muito discreto. Os aluguéis foram sempre pagos. A nossa preocupação é mais com aqueles que não pagam", adiantou uma funcionária do escritório do Icade em Beauregard, a instituição que administra o imóvel.
O aluguel era pago por transferência bancária automática, "como é normal", disse a mesma funcionária do Icade. Apesar disso, a eletricidade estava cortada no apartamento de José Gomes de Macedo.
"Não é normal alguém morrer e estar dois anos sem ninguém dar por nada. É preciso colocar questões ao banco, aos correios, à empresa de eletricidade. Um homem morre e já ninguém percebe?", questionava um lojista.
A caixa de correio de Macedo tinha correspondência com datas a partir de 2007. Os bombeiros encontraram no frigorífico um iogurte com data de vencimento de novembro de 2007.
No prédio ao lado foi descoberto, há três semanas, um homem que tinha morrido "há quinze dias", segundo os vizinhos, que foram alertados pelo cheiro do corpo em decomposição.