Roma, 14 out (Lusa) - O escritor José Saramago acusou o papa Bento 16 de "cinismo" e defendeu que a "insolência reacionária" da Igreja Católica precisa de uma resposta com a "insolência da inteligência viva".
"Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neomedievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem", disse Saramago, em Roma, durante um evento ao lado do filósofo italiano Paolo Flores D'Arcais, noticiou o jornal
Il Fatto Quotidiano.
O vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1998 está na capital italiana para apresentar o livro "O Caderno", em que estão compilados textos que escreveu entre setembro de 2008 e março deste ano no seu blog, e reunir-se com amigos italianos, como a prêmio Nobel de Medicina de 1986, Rita Levi Montalcini.
Na conversa que manteve com Flores D'Arcais, Saramago afirmou ser um "ateu tranquilo", mas que agora está mudando de ideias.
"Às insolências reacionárias da Igreja Católica há que responder com a insolência da inteligência viva, no bom sentido, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder", declarou.
Segundo Saramago, interessa pouco à Igreja o destino das almas e o que sempre procurou é o controle dos seus corpos. "A razão pode ser uma moral. Usemo-la".
FascismoQuestionado sobre se a ausência de empenho de escritores e intelectuais pode ser uma das causas da crise da democracia, o escritor disse que sim, mas que não é a única razão, já que toda a sociedade está nessas condições e isso leva a uma crise de autoridade, da família, dos costumes, uma crise moral em geral.
Saramago advertiu para que na Europa "está a crescer o fascismo" e mostrou-se convencido de que nos próximos anos "atacará com força". "Temos de preparar-nos para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão a alimentar".
"Apesar de ser claro que se apresentarão com máscaras pseudo-democráticas, algumas das quais circulam já entre nós, não devemos deixar-nos enganar", ressaltou.
Antes de Roma, Saramago esteve em Milão, Turim, Alba e Pontedera, onde se encontrou com os seus leitores e criticou o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi.
Em declarações ao diário ex-comunista
L'Unità, o escritor disse que Berlusconi é a "doença do país" e nesta quarta-feira, na conversa com Flores D'Arcais afirmou que o que mais caracteriza a esquerda, no plano internacional, é a "falta de ideias".
A direita, de acordo com Saramago, não precisa de ideias para governar e isso se vê em Berlusconi, "que não tem nenhuma", mas a esquerda, 'se não tem ideias, não tem nada que oferecer aos cidadãos".
A visita de Saramago a Roma ocorre dias antes do lançamento do seu romance mais recente, "Caim", em que o escritor se ocupa novamente da religião e que será simultaneamente editado em português (de Portugal e do Brasil), espanhol e catalão.