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16/10/2009 - 10h13

Catadores de ferro-velho sofrem efeito da crise na Espanha

Por António Sampaio, da Agência Lusa

Cañada Real, Espanha, 16 out (Lusa) - Juanco sobe, como todos os dias, em uma van preparado para percorrer Madri em busca de ferro-velho, mais do que nunca sua atividade também sente os efeitos da crise na Espanha.

"Chatarrero, chatarrero. Recolhemos eletrodomésticos, ferro, tudo", vai gritando pelo megafone em ruas onde outrora, especialmente nos últimos anos, se encontrava sempre um móvel, uma televisão velha, um resto de uma limpeza de garagem.

Além disso, há apenas dois anos o veículo voltava cheio, mas essa realidade mudou, mesmo após longas horas percorridas pelas zonas mais ricas da capital espanhola. "Nem ferro velho há", lamenta Juanco.

"Isto da crise está mesmo mal. As pessoas não compram novo e não deitam fora o velho", explica quem anda com a mulher ou com um irmão no recolhimento dos materiais.

Como muitos companheiros de profissão, Juanco vive na Cañada Real, uma das zonas de maior concentração de pobreza na periferia madrilenha, zona de barracas e habitações precárias, que servem de casa a imigrantes legais e ilegais, a ciganos e espanhóis mais carentes.

Cañada Real é um dos rostos da pobreza na Espanha. Mas, claramente, não é o único, nem o mais recente.

Os mais recentes encontram-se, por exemplo, nas vinhas da zona de La Rioja ou nos campos agrícolas de Múrcia, outrora procurados por imigrantes ilegais, mão-de-obra intensa e barata sem outro recurso que não as colheitas.

Retorno

Muitos do mais de um milhão de espanhóis que perderam os postos de trabalho no último ano voltaram à agricultura, tirando o lugar aos imigrantes ilegais, que acabam em acampamentos improvisados, em bosques e matas, nas margens das grandes plantações.

Organizações de apoio social, como a Cáritas, estimam que, se aplicado o critério europeu para definir a pobreza - viver com menos de metade do rendimento médio nacional disponível -, existem atualmente na Espanha quase 2,2 milhões de famílias nessa condição, ou seja, mais de oito milhões de pessoas.

Uma situação que se agrava progressivamente, num momento em que o desemprego já ultrapassou os 18% e pode continuar a crescer até finais de 2010.

Em meados de 2009, quase 6,5% das famílias espanholas tinham todos os seus membros desempregados e 470 mil famílias não tinham qualquer fonte de renda.

As contas das organizações de solidariedade indicam que entre 560 mil e 675 mil famílias vivem em pobreza extrema, com graves carências de emprego, habitação, educação e saúde.

A própria Comissão Europeia advertiu a Espanha, em março, de que era necessário fazer mais para combater a pobreza no país, que atinge 20% da população - o segundo valor mais alto dentro do bloco europeu.

Desigualdade

Contudo, o índice dos pobres não baixou na Espanha, apesar da bonança econômica vivida nos últimos anos. Uma mostra disso é que o país continua a ter um valor de trabalhadores pobres acima da média (11% contra 8% no resto do continente).

E estes dados reportam a 2007, ou seja, antes da crise, quando a Espanha registrava um excedente nas contas públicas e um crescimento médio anual de cerca de 3% .

Organizações como a Cáritas queixam-se de falta de apoio, ou de excessiva lentidão, por parte das prefeituras e outras entidades oficiais, chegando as ajudas a demorarem três meses para serem liberadas.

Os recursos para apoiar os mais pobres não aumentaram de 2007 para 2008 e as organizações mostram a debilidade do Sistema de Garantias de Rendimentos Mínimos, cujo valor médio concedido para a população é de 208 euros por mês.

Isso é pouco num país onde a disparidade social é evidente e o número de pessoas pobres não para de aumentar.

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