Por Pedro Rosa Mendes, da Agência LusaParis, 16 out (Lusa) - O recém-criado Rendimento Solidário Ativo (RSA) está no centro de um debate quente na França, um país que, segundo uma pesquisa europeia recente, vive o pânico da pobreza.
"A pobreza está a ser cada vez mais estigmatizada em França", afirmou à Agência Lusa o delegado nacional da ATD Quart Monde, uma organização francesa de militância social que, em 1987, iniciou a jornada contra a pobreza que se assinala sábado em vários países, incluindo Portugal.
Para Tardieu, os números oficiais sobre o tema são insuficientes e "não passam de um exercício de comunicação", referindo-se à apresentação em Conselho de Ministros, na última terça-feira, do "livro de bordo de acompanhamento da pobreza".
Como pano de fundo está, para o governo francês, o sucesso de medidas de reforma, como é o caso do RSA, ampliado a toda as cidades francesas em 1º de junho.
Em julho, 1,3 milhão de um universo potencial de 1,7 milhão de lares franceses recebia o primeiro RSA, um complemento mensal de rendimento para quem está empregado.
Já para os críticos do modelo, como Tardieu, o RSA "intervém numa franja próxima do limiar da pobreza (880 euros), mas esquece os que não têm quase nada".
Contudo, Tardieu contrapõe as projeções otimistas e ao balanço do RSA: "uma avaliação da pobreza que não é apenas monetária": França tem entre 4,2 milhões e oito milhões de pobres, consoante se adoptar o critério das pessoas que vivem com menos de 50% do rendimento médio (700 euros) ou com menos de 60% desse valor (880 euros).
A taxa de pobreza oscila entre 7,2% e 13,4%, o que significa um aumento anual entre 200 mil e 600 mil pessoas abaixo do limiar estatístico da pobreza.
Além disso, ele afirma que as projeções oficiais "não levam em conta o número de pessoas que em França vivem com menos de 450 euros mensais".
"Muitos franceses não atingem sequer a fasquia dos 40% do rendimento médio", frisa.
Mas o dirigente da ATD Quart Monde adianta outros números: há 300 mil crianças "errantes" na França; há um milhão de pessoas sem casa; e 130 mil crianças "saem da escola primária anualmente sem conhecimentos".
De acordo com o último relatório sobre insucesso escolar, a percentagem de estudantes que saem do ensino primário sem conhecimentos aumentou de 11% para 15% desde 2007.
O "caderno de bordo", com cerca de quarenta indicadores, devia concretizar o compromisso assumido em 2007 pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy: reduzir a pobreza para um terço em cinco anos.
"França viveu os 30 Gloriosos, como se diz aqui para as décadas de 1960 a 1980", resumiu o sociólogo Aníbal Almeida, ouvido pela Agência Lusa em Paris.
Almeida, provedor da Santa Casa da Misericórdia na França, acrescentou que "o aumento da pobreza foi maior nos últimos cinco anos e piorou com a atual crise".
"Isso é verdade a nível geral e ao nível da comunidade portuguesa. As duas vão a par", diz.
Uma pesquisa realizada pelo instituto Ipsos indica que a crise acentuou o medo da pobreza no país. Dos quatro países abrangidos pela pesquisa (França, Reino Unido, Espanha e Polônia), os franceses são os que têm mais pânico de ficar pobre.
Por outro lado, 85% dos franceses pesquisados pensam que o risco de pobreza é mais elevado para os seus filhos do que para a sua própria geração.