Johannesburgo, 20 out (Lusa) - Ocupações de propriedades, muitas vezes por membros do exército e da polícia, agressões e saque sistemático de plantações e equipamentos continuam a dominar a realidade dos agricultores comerciais do Zimbábue, afirmou nesta segunda-feira um agricultor.
Em entrevista por telefone para a Agência Lusa, Charles Lock, um agricultor de Headlands, protegido por uma ordem judicial que lhe confere o direito de explorar a sua propriedade (a quinta Karori, com 376 hectares), contou que soldados sob as ordens de um brigadeiro com laços familiares com um membro do governo têm invadido a sua propriedade nas últimas semanas. Além disso, foram roubados equipamentos, colheitas e ameaçado os trabalhadores. Contudo, segundo ele, a polícia não interveio para protegê-lo.
"O brigadeiro Mujaji, cuja mulher é irmã da mulher do ministro da Justiça, Patrick Chinamasa, está acima da lei. Soldados comandados por ele apossaram-se no início desta semana de 15 toneladas de tabaco que estavam prontas para serem transportadas para Harare e leiloadas, mil sacos de farinha de milho e dois mil litros de gasóleo que me pertencem sem que a polícia mexa um dedo para me devolver o que me é devido", disse Lock.
No final do mês passado, quando foi noticiado que a primeira-dama zimbabuana, Grace Mugabe, explora seis fazendas que foram confiscadas de fazendeiros brancos entre 2002 e 2009, o agricultor Murray Pott, da região de Chinhoyi, viveu um autêntico pesadelo durante um período de duas semanas.
BarbárieEm 4 de setembro, um grupo de cerca de 17 ocupantes a mando de um alto funcionário do governo que pretende expropriar a fazenda, transgrediu os limites da propriedade pela primeira vez, ameaçando e agredindo trabalhadores.
Apesar de eu ser a vítima, a polícia apareceu e forçou-me a acompanhar a patrulha até à esquadra de Chinhoyi, onde me levantaram um auto por agressão aos invasores. Até me acusaram de ter disparado contra eles, quando eu nem armado estava durante a ocupação", contou o fazendeiro à Agência Lusa.
Pott, que foi libertado no mesmo dia, voltou a ser visitado pelo mesmo grupo de invasores no mesmo mês. No último dia 11, os invasores (que alegam ser veteranos de guerra, apesar de serem todos jovens, nem sequer nascidos na época da luta de libertação contra o regime de Ian Smith) apossaram-se de um carregamento de fertilizantes e de um trator. Depois disso, eles conduziram os produtos para fora da propriedade após atacar vários trabalhadores que tentaram evitar o furto.
Em 15 de setembro, contou Pott, o mesmo grupo voltou com a intenção de o expulsar da fazenda. Contudo, Pott e um grupo de trabalhadores tentou, no exterior da propriedade, travar a marcha dos ocupantes, mas estes atacaram-no com paus e pedras provocando-lhe ferimentos na face, cabeça e num braço, antes de se retirarem da fazenda.
A agressão ao agricultor foi filmada por um familiar, que se encontrava a escassos metros do local do confronto, escondido, tendo o vídeo sido enviado à Agência Lusa pela Associação de Agricultores Comerciais do Zimbábue (Comercial Farmers Union, CFU, no original em inglês), que representa 400 fazendeiros, que restam do grupo de 4,5 mil agricultores que possuíam terras no país em 2000.
"Desde a agressão que a situação acalmou um pouco na minha propriedade. Mas estamos sempre à espera que os ocupantes regressem, que nos matem, que queimem a propriedade ou que roubem o que possuímos ou o que cultivamos. Vivemos literalmente com o credo na boca", confessou Pott.
Enquanto que para este fazendeiro "o governo de unidade nacional é a última esperança de normalização do Zimbábue", Charles Lock manifestou-se completamente descrente no acordo de partilha do poder entre o líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) e primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai, e o presidente Robert Mugabe.
"Tsvangirai não tem qualquer poder. É Mugabe, a ZANU-FP (União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica) e os soldados e a polícia, que obedecem a ordens da ZANU-FP e do presidente e dos seus aliados, quem detém o poder real. Por isso nada mudou nem vai mudar", concluiu o agricultor.