Por António Caeiro, da Agência LusaPequim, 29 out (Lusa) ? Seis meses antes da queda do Muro de Berlim, estudantes chineses ocuparam a Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, no primeiro grande movimento em favor da democracia a abalar o campo socialista, há 20 anos. O desfecho, porém, foi completamente diferente.
Ao contrário do que aconteceu em todo o Leste Europeu e depois na própria União Soviética, o Partido Comunista Chinês (PC Chinês) se mantém no poder há 60 anos, e presidiu um dos maiores milagres econômicos da história.
O movimento pró-democracia da Praça da Paz Celestial - ou "rebelião contrarrevolucionária", segundo a terminologia do governo ?, foi sufocado pelo Exército em junho de 1989, em uma intervenção que deixou centenas de mortos e isolou a China internacionalmente.
Segundo estudiosos, a indignação causada na Europa pelos trágicos acontecimentos de Pequim teria inibido as autoridades da então República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) de usar a força militar para reprimir as manifestações populares no país.
Para os líderes chineses, porém, a queda dos "partidos irmãos" se tornou objeto de estudo minucioso.
"Devemos tirar uma profunda lição da experiência dos partidos comunistas que perderam o poder em outras partes do mundo. Quanto mais tempo um partido está no poder, mais rigoroso tem de ser", disse o ex-presidente chinês Jiang Zemin, ao defender a abertura do PC Chinês a empresários privados, em 2001.
Em vez de se assumir apenas como "representante das classes trabalhadoras", como faziam tradicionalmente as formações políticas comunistas, o PC chinês pretende representar "a esmagadora maioria do povo", "a cultura avançada" e "as forças produtivas mais desenvolvidas".
Ao analisarem as causas da "agitação" no Leste Europeu em 1989, os comunistas chineses concluíram que "o movimento foi impulsionado pelo patriotismo", explica o professor norte-americano Jeffery Wasserstrom em artigo recente publicado na revista
Foreign Policy.
Os partidos comunistas naqueles países seriam vistos, sobretudo, como agentes de uma potência estrangeira, a então União Soviética, e, ao contrário do que tinham prometido quando falavam na "superioridade do sistema socialista", suas economias não conseguiam competir com a de nações capitalistas.
Na China, o "desenvolvimento econômico" e a "reunificação da pátria" são as principais bandeiras do Partido Comunista.
Sem abrir mão de seu "papel dirigente", o PC Chinês passou a encorajar a iniciativa privada e a abertura ao capital externo, recuperou o exercício da soberania sobre Hong Kong e Macau, e organizou, com sucesso, os Jogos Olímpicos de 2008.
A China se tornou a terceira maior economia do mundo e, no plano político-diplomático, a voz do país também tem cada vez mais peso e prestígio.
Sinal dos tempos, a fábrica 798, construída por técnicos da antiga Alemanha Oriental nos arredores de Pequim, na década de 1950, se tornou hoje uma cosmopolita e vanguardista "área artística", com cerca de 400 galerias, cafés e lojas de grife.
O Muro de Berlim, que durante quase três décadas simbolizou a Guerra Fria e a divisão da Europa, caiu no dia 9 de novembro de 1989.