Maputo, 5 nov (Lusa) - A economia do Zimbábue registrou crescimento nos últimos nove meses, mas a crise política está levando empresários estrangeiros a congelar os investimentos no país, onde também aumentou a instabilidade e a violência.
Na última quarta-feira, em Maputo, o secretário-executivo da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), Tomáz Salomão, disse que, nos últimos nove meses, a economia do Zimbábue registrou crescimento e acrescentou que o levantamento das sanções levaria o país africano a ser novamente a potência econômica que já foi.
O Zimbábue, porém, está há três semanas mergulhado em uma crise política, devido à recusa do primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai, em participar das reuniões do governo, acusando a União Nacional Africana do Zimbábue - Frente Patriótica (Zanu-PF), partido do presidente, Robert Mugabe, de violar o pacto assinado em fevereiro deste ano e que possibilitou o Executivo conjunto.
O premiê também acusa o partido de Mugabe de perseguir os membros do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), legenda de Tsvangirai.
Logo após a ruptura das relações, o ministro zimbabuano da Indústria, Welshman Ncube, advertiu na capital, Harare, que os empresários estrangeiros estavam congelando os investimentos, e citou como exemplo os potenciais investidores na Zimbabwe Iron and Steel Company (Zisco), que passaram do entusiasmo à relutância.
"Temos de voltar a fazer o mesmo trabalho que fizemos nos últimos oito meses. Somos um país frágil, os olhos de todo o mundo estão virados para nós", disse o ministro, que é membro de uma facção do MDC.
Ncube falou durante uma reunião com empresários zimbabuanos, aos quais alertou para os efeitos da crise política no comércio e na indústria.
Com o governo de unidade nacional dos últimos oito meses, o Zimbábue tentava restaurar laços com os parceiros econômicos e reconstruir as infraestruturas e serviços sociais, ainda que a maioria dos doadores exija mais reformas como condição para aumentar o apoio.
Recentemente, o grupo de países aliados do Zimbábue, integrado por Estados Unidos, Canadá, Austrália, Dinamarca, Finlândia e França, entre outros, exigiu o fim do impasse político e lembrou que a ajuda oficial total ao desenvolvimento concedida à nação africana passou de US$ 580 milhões em 2008 para US$ 630 milhões este ano.
Os países também prometeram seguir fornecendo o apoio no próximo ano.
FragilidadeA crise política abalou a já frágil estrutura econômica do país e as previsões indicam que o ano agrícola será, de novo, desolador, com os agricultores comerciais, em sua maioria brancos, queixando-se de dificuldades devido às expropriações praticadas pelo governo e também por causa do aumento da violência.
A União dos Agricultores Comerciais (CFU, na sigla em inglês) afirma que a maioria de seus membros se preparou para o período agrícola 2009/2010, mas que reina o ceticismo quanto aos resultados, porque as invasões de propriedade persistem.
O presidente da CFU, Deon Theron, diz que uma onda de ataques contra as poucas terras ainda nas mãos de agricultores brancos e contra seus trabalhadores é motivo de grande preocupação, tanto para a segurança alimentar do Zimbábue quanto para toda a região da África Austral.
A previsão para a produção de milho na temporada 2009/2010 é de 500 mil toneladas, contra as mais de 2 milhões antes do controverso programa de expropriação de terra.
O uso múltiplo de moedas (autorizado em janeiro), como o rand, da África do Sul, e o dólar, pareceu estabilizar a inflação e os produtos voltaram às prateleiras dos mercados, mas na principal fronteira terrestre entre Moçambique e o Zimbábue (Machipanda, na província de Manica) são registradas diariamente entre 300 e 400 entradas de zimbabuanos, que chegam a Moçambique em busca de artigos de primeira necessidade.
Na cúpula desta quinta, em Maputo, que une Mugabe e Tsvangirai e os líderes da SADC, pode ser encontrada uma solução à crise política, um caminho para resolver o impasse econômico.