Rio de Janeiro, 6 nov (Lusa) - O Brasil não pode ficar de fora da discussão sobre o desenvolvimento de um modelo econômico de baixo teor de carbono, defendeu em entrevista à Agência Lusa o economista Sérgio Besserman, membro do conselho diretor da Rede WWF-Brasil.
"Nós poderíamos nos apresentar ao mundo como liderança deste processo de transição para uma economia de baixo teor de carbono", explica o especialista brasileiro em mudanças climáticas que já integrou a missão diplomática brasileira em duas Conferências das Partes das Nações Unidas.
Besserman realça que o Brasil poderia estar à frente na negociação mundial sobre mitigação das mudanças climáticas. "Deveria ser um dos atores que destravam a negociação ao colocar metas ambiciosas", argumenta.
No caso do brasileiro, afirma, a transição para uma economia de baixo teor de carbono é "o ato de transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas". O economista e ambientalista cita as fontes de energia renováveis como a biomassa, a eólica e a solar como pontos positivos.
A situação do Brasil é "muito peculiar", classifica. "Diferentemente de outros países, nós temos muito mais a ganhar caminhando para uma economia de baixo teor de carbono", para quem a proposta que o país poderá levar à Conferência da ONU, em dezembro, em Copenhague, deve ir além da redução de 80% da desflorestação da Amazônia até 2020.
Este é o único consenso, até agora, entre as autoridades brasileiras que adiaram para 14 de novembro a definição de quanto o país estaria disposto a reduzir de suas emissões.
Besserman adverte que o governo brasileiro tem divisões no seu interior e estas refletem as divisões da sociedade brasileira. "Na minha opinião, há pouca compreensão de quanto iremos sofrer e perder com o aquecimento global que caminha para os piores cenários".
O economista discute ainda que, até o momento, não há sinais de que um consenso "a altura da necessidade vá se produzir" entre os países na reunião de clima que busca-se um novo acordo mundial para substituir o Protocolo de Quioto, a expirar em 2012. "Mas pode ocorrer de última hora", destacou.
Países como China, Índia e Brasil passaram a ter um peso maior na economia global e também nas emissões de gases de efeito estufa, e, portanto, devem assumir "a sua parte de responsabilidade comum".
Para Besserman, o mundo está "muito atrasado" na discussão ambiental e "o relógio do clima está a andar".
E o Brasil, ressalta, deve pensar numa política energética para além da focada nos combustíveis fósseis, pois só desta forma o país se transformará numa potência ambiental.
"O desafio é utilizar os recursos do pré-sal para alavancar e acelerar esta transição em direção a uma economia de baixo teor de carbono".
"Só assim seremos o país do século 21", disse parafraseando a afirmação do presidente norte-americano, Barack Obama, referindo-se ao seu colega Luís Inácio Lula da Silva ao chamá-lo de "o cara".