Por Francisco Fontes, da Agência Lusa ***
Coimbra, 8 nov (Lusa) - A berberina, uma substância natural encontrada em várias plantas, poderá originar, dentro de uma década, um poderoso medicamento contra o câncer, como afirma uma pesquisa em curso no Centro de Neurociências (CNC) da Universidade de Coimbra.
A equipe de investigação liderada por Paulo Oliveira tem centrado suas pesquisas em duas substâncias naturais, os alcalóides berberina e sanguinarina, mas o segundo, embora mais potente na destruição das células tumorais, apresenta maior toxicidade.
As duas substâncias têm revelado grande potencial para o tratamento do câncer de pele, mesmo nos melanomas com metástases (malignos), seja bloqueando a doença ou eliminando as células tumorais, e apresentam propriedades idênticas contra o de mama.
Oliveira revelou à Agência Lusa que, no próximo ano, em colaboração com a Universidade de Minnesota (Estados Unidos), seus efeitos serão estudados em ratos, nos quais será introduzido um tumor, que será tratado com um desses componentes naturais, presumivelmente começando pela berberina.
"A berberina, nas nossas linhas celulares não tumorais, é pouco tóxica, e há aqui uma janela de oportunidade para que daqui a cinco ou dez anos se possa, eventualmente, usar a berberina ou um derivado dela como um possível agente antitumoral", disse o pesquisador.
Segundo Paulo Oliveira, estudos anteriores evidenciam que a berberina e a sanguinarina "têm um efeito muito forte em linhas celulares de melanomas, em especial no metastásico, que é muito agressivo, mas com mecanismos diferentes".
"O mais interessante é que, no caso da berberina, a mais promissora, não mata as células tumorais, mas para seu crescimento em ratinhos. No caso de células de melanomas humanos, o que vimos também, curiosamente, é que não só para o crescimento, como mata essas células", explicou.
Para o cientista, "isto pode ser um efeito muito interessante, porque muitas vezes a morte desenfreada das células tumorais acaba por liberar fatores tóxicos dessas mesmas células, que são altamente nocivos para o organismo e para o órgão que rodeia esse tumor".
"Se conseguirmos travar a progressão de uma metástase podemos ter outras técnicas, nomeadamente a cirurgia, que permita remover essas metástases. Se isso não for possível, podemos recorrer à morte das células tumorais e tentar eliminar essas metástases", afirmou.
Ação dos compostos naturaisA ação dos dois elementos estudados deve-se a uma interferência nos mecanismos de produção de energia por parte das células, em nível mitocondrial.
Os pesquisadores, que integram o Grupo de Toxicologia e Farmacologia Mitocondrial, procuram também perceber a relação da atividade da mitocôndria com a estrutura do composto, para descobrir quais as partes da molécula que são tóxicas.
A berberina e a sanguinarina são encontradas em algumas plantas em Portugal, mas mais frequentemente na América do Norte e na Ásia. A primeira substância é extraída da Ameixieira de espinho e também está presente em outros exemplares da espécie berberis.
Segundo composto aparece em plantas da família das papoulas. Ambas incorporam produtos naturais existentes no mercado, como dietéticos e cosméticos.
"Há a perspectiva de que estas investigações possam resultar em ensaios clínicos futuros, com fármacos experimentais, em um prazo de cinco a dez anos", concluiu Oliveira.