|
|  |

27/03/2006 - 18h40
Juro em alta, PIB em baixa e sucessão de denúncias marcaram "era Palocci" na Fazenda
Da Redação
Em São Paulo
Palocci sucumbiu à pressão causada pela suspeita de que ordenou a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, que desmentiu o depoimento do ministro à CPI dos Bingos. O ministro, que se tornara o maior alvo de ataques da oposição a Lula no campo político, também era sistematicamente criticado por sua política econômica, acusada de não estimular o crescimento do PIB.
 | | | Antonio Palocci, em foto da última sexta-feira | A suspeita de que tenha partido de Palocci a ordem para a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos da Costa constrangeu o ministro e o governo Lula de forma semelhante ao escândalo do mensalão.
O presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, afirmou nesta segunda-feira em depoimento à Polícia Federal que entregou ao ministro o extrato da conta do caseiro, obtido ilegalmente. Mattoso foi indiciado por crime de violação de sigilo funcional após confessar seu envolvimento no caso.
O governo comemorava a superação da crise aberta com as revelações de Roberto Jefferson --e a forte recuperação de Lula nas pesquisas-- quando Costa, caseiro de uma mansão alugada por ex-assessores do ministro em Brasília, afirmou que Palocci freqüentava a casa, supostamente usada para acertos ilícitos.
Segundo o caseiro, o imóvel servia para reuniões de lobistas acusados de interferir em negócios de seu interesse no governo Lula, para partilha de dinheiro e abrigava festas animadas por garotas de programa.
O que poderia resultar em apenas uma guerra de versões piorou muito com a revelação de que o caseiro recebeu depósitos de cerca de R$ 25 mil, incompatíveis com seus rendimentos, em sua caderneta de poupança. Aliados do ministro pretendiam sugerir que o caseirto estava a mando de seus detratores.
Mas o fato de Costa ser cliente da Caixa Econômica Federal, banco subordinado a Antonio Palocci, esquentou o caso a ponto de tornar insustentável a situação do ministro.
Antes disso, durante a crise do mensalão, quando ogoverno Lula enfrentou sua maior crise política, Palocci também é afetado por uma série de denúncias. O ministro foi acusado de praticar irregularidades em seus mandatos como prefeito de Ribeirão Preto e ter recebido propina de uma empreiteira da cidade. Seu irmão, Adhemar Palocci, foi acusado de ter feito caixa dois para o PT em 2004.
Palocci também sofreu denúncia de recebimento de dinheiro de Cuba e de empresários angolanos para a campanha de Lula em 2002, além de integrar grupo lobista no caso GTech-Caixa.
Economia
O controle da inflação, com altas taxas de juros e baixo crescimento do PIB, marcou a gestão de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda. Embora tenha conseguido a estabilidade, a política econômica foi condenada por não estimular o crescimento. As críticas à sua política, somadas a denúncias de corrupção e irregularidades, fragilizam a posição do ministro Palocci.
O controle da inflação era a prioridade de Antonio Palocci Filho quando assumiu o Ministério da Fazenda, em 2003. À época, a taxa anual batia nos 20%, e o dólar aproximava-se da casa dos R$ 4. O ministro, que manteve basicamente a mesma equipe do Pedro Malan, ministro de FHC, usou a política monetária para conter a alta de preços, elevandoi a taxa de juros.
A opção mostrou-se bem sucedida ao longo de 2003. A inflação passou a cair de forma regular e consistente. Por outro lado, a restrição ao crédito, decorrente de juros de aproximadamente 25% ao ano, resultou em um crescimento pífio, de cerca de 0,3%. Reduções graduais da taxa de juros não diminuíram as críticas que Palocci passou a receber do mercado.
Para muitos economistas e analistas políticos, o surto inflacionário de 2002 se deveu ao receio de mercado e investidores a um governo do PT. Não haveria motivos estritamente econômicos para a alta de preços. Portanto, segundo este raciocínio, os juros poderiam cair de forma mais acentuada após o governo mostrar que não alteraria a política econômica de FHC.
Para seus críticos, Palocci não aproveitava o ciclo de acelerado crescimento mundial para estimular o PIB brasileiro. Os setores da economia ligados a exportação puxam o crescimento do PIB.
Embora tenha crescido fortemente em 2004 (4,9%), a economia brasileira tem desempenho muito inferior aos dos líderes mundiais em crescimento (como a China, que cresce a uma taxa de 9% ao ano) e de outros países em desenvolvimento. O crescimento de 2,6% em 2005 intensificou as críticas.
Trajetória
Nos anos 70, Antonio Palocci Filho conciliava as aulas de Medicina na USP de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, com a militância estudantil --era integrante da Libelu (Liberdade e Luta), um movimento de linha trotskista radical. Palocci usava, nessa época, o codinome militante de "Pablo" Em 1980, Palocci entrou para o PT. Disputou em 1988 as eleições para vereador de Ribeirão Preto e foi um dos mais votados, eleito com cerca de 3.500 votos. Dois anos depois, foi eleito deputado estadual. Palocci foi eleito prefeito de Ribeirão Preto em 1992. Sua primeira gestão como dirigente da cidade foi o único mandato completado por Palocci. Em seu governo, o ex-esquerdista radical privatizou parte da companhia telefônica local e concedeu à iniciativa privada o tratamento de esgoto, além de ter firmado laços com o empresariado. Palocci concluiu sua gestão em 1996. Naquele ano, ainda não era permitida a reeleição (aprovada em 1998 pelo Congresso Nacional). Em 1997, foi eleito presidente do PT no Estado de São Paulo. Nas eleições de 98, Palocci foi eleito deputado federal com votação histórica: 100.000 votos, sendo 80 mil originários de Ribeirão Preto. Não chegou a completar o mandato --foi novamente eleito, em 2000, prefeito de Ribeirão.
Palocci venceu, em primeiro turno, com a ajuda do marqueteiro Duda Mendonça. Além de ter como vice o presidente da Associação Comercial e Industrial, colocou um banqueiro em uma das secretarias municipais. Palocci ganha fama de administrador competente. Em 2002, Palocci aproximou-se definitivamente da cúpula petista. Com o assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André, a campanha do então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva precisa de um novo coordenador. Palocci é o indicado para o cargo.
Com a vitória de Lula em outubro, Palocci foi um dos chefes também do governo de transição, em novembro e dezembro.

|  |
ÚLTIMAS DA POLÍTICA
|