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21/10/2005 - 21h30
QUESTÃO DE ORDEM - Às armas, enquanto é tempo
MAURO SANTAYANA da Agência Carta Maior
Seria maravilhoso que todas as armas do mundo fossem destruídas. Mas não estamos levando a sério os perigos que nos rondam. É preciso parar de agir como os avestruzes, que enfiam a cabeça na areia. É bom pensar nisso antes de votar no referendo.
21/10/2005 - O grande argumento contra a proibição das armas é de um general da Reserva, Durval Antunes Néri, que passou a maior parte de seu serviço ativo na Amazônia. A defesa daquele amplo território nacional só poderá ser efetiva se cada caboclo, se cada índio de consciência nacional (fora os grupos "catequizados" e dominados pelos "missionários" estrangeiros) tiver a sua arma e munição farta. Nem todos os nossos efetivos militares serão capazes de garantir a soberania nacional na região: ela vai depender das carabinas dos caboclos e, até mesmo, de suas chumbeiras. O que se devia fazer era melhorar o armamento das populações brasileiras da Amazônia, criar unidades adestradas de autodefesa, municiá-las permanentemente. E não só as da Amazônia. Em todo o Brasil, sobretudo nas regiões fronteiriças, devíamos contar com milícias bem preparadas, prontas a rechaçar, em operações de guerrilha, qualquer tentativa de invasão do território. A advertência romana de que só temos paz quando estamos preparados para a guerra continua hoje mais atual do que nunca. Nos últimos anos, uma pertinaz ação de lavagem cerebral nos quer convencer de que as guerras já foram superadas por outro tipo de conflito, o meramente diplomático, como se fosse possível combater com luvas e punhos de renda. Se, é o que pregam, as fronteiras se abriram para o livre intercâmbio de mercadorias e se as regras do comércio internacional se encontram estabelecidas por organismos multilaterais, o dinheiro gasto com as armas deve ser destinado a outras coisas. Mas, só os idiotas não percebem que essa teoria só interessa ao pequeno clube de países fortemente armados e ricos, que continuam fazendo a guerra a fim de garantir seus suprimentos de matéria prima.
O desmantelamento das Forças Armadas se iniciou no governo Collor e se agravou durante os dois mandatos do Sr. Fernando Henrique Cardoso. Por pouco, o presidente "off-shore" - que passou a maior parte de seu mandato extasiado com os acadêmicos europeus e norte-americanos do que lendo sobre a realidade brasileira - não aceitava a tese norte-americana de que devíamos transformar os nossos exércitos em simples forças policiais para combater o narcotráfico, começando pela invasão da Colômbia, como lhe sugeriu Bill Clinton, e ele confessou recentemente a conversa. Ao que se sabe, houve forte reação dos altos oficiais militares, e o eminente tucano achou melhor recuar.
Até mesmo para manter a neutralidade, no caso de conflitos na vizinhança, o Brasil deve manter exércitos poderosos. Dizia Tancredo que, em matéria de bravura pessoal, os nossos soldados não eram superados por nenhum estrangeiro, mas que nos faltavam apetrechos bélicos para tornar efetiva essa bravura. Gastamos agora 600 milhões para a inutilidade de um referendo sobre as armas. Com esse dinheiro era possível comprar alguns aviões e alguns blindados anfíbios para o patrulhamento da Amazônia. E, em outro raciocínio, daria para distribuir 600 mil fuzis automáticos aos brasileiros que se encontram nas fronteiras setentrionais do Brasil.
Não estamos levando a sério os perigos que nos rondam. É preciso parar de agir como os avestruzes, que enfiam a cabeça na areia, escondendo-se do perigo, mas deixando as costas à mercê dos predadores.
É bom pensar nisso, antes de votar no referendo. Seria maravilhoso que todas as armas do mundo fossem destruídas. As dos cidadãos pacatos, que podem disparar acidentalmente ou serem usadas por motivos fortuitos, a dos bandidos, que as usam como ferramenta para ganhar a vida, a dos esportistas (nunca se sabe quando pode ocorrer um disparo incontrolado), a de todos os exércitos do mundo. Que tal se desarmassem todas as bombas nucleares, e transformassem sua carga em isótopos medicinais?
Já que assim não é, aux armes, cittoyens!
Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

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