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O ano em que George Bush e os EUA perderam

Larry Downing/Reuters

O presidente George Bush e seu Partido Republicano ficaram abatidos com a derrota nas eleições legislativas

Carolina Juliano

do UOL Mídia Global

George W. Bush recebeu sinal verde dos norte-americanos, há dois anos, para continuar a governar o país por mais um mandato. Mas em 2006, os mesmos eleitores levantaram para o presidente a bandeira de impedimento. Este ano foi marcado por uma sucessão de derrotas daquele que já se considerou o homem mais poderoso do mundo, desrespeitando, dentre outras, determinações das Nações Unidas para levar adiante a sua empreitada no Iraque.

Em novembro, Bush viu seu poder diminuir primeiro dentro das próprias fronteiras de seu país. No dia 8, o Partido Democrata derrotou o Partido Republicano nas eleições legislativas e o presidente perdeu o controle da Câmara dos Representantes e do Senado. As pesquisas de opinião apontaram que a rejeição aos republicanos se devia, em primeiro lugar, à política adotada por Bush no Iraque.

Imediatamente, o presidente deu início a uma série de viagens ao exterior – em especial à Ásia – com o objetivo de tentar recuperar o prestígio que a derrota de seu partido nas eleições poderia ter perdido. Mas os problemas de George Bush estavam apenas no início neste final de ano. Os Estados Unidos claramente davam mostras de enfraquecimento e o ano terminou negativo para os americanos.

Rejeição na Europa
Bush sentiu o baque também além-mar. Na Europa, muitos países comemoraram sua derrota nas eleições proporcionais e demonstraram satisfação em ter de novo os democratas no poder para tentar acabar com os desentendimentos entre as duas partes. O governo Bush afastou-se gradativamente da Europa por não entrar em acordo em diversos assuntos, entre os quais a crise no Iraque, a prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba, e a recusa dos Estados Unidos em assinar o Protocolo de Kyoto, o acordo internacional sobre as mudanças climáticas.

O velho continente atestou a perda de poder dos EUA na reunião de cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), realizada no fim de novembro, quando rejeitou a proposta de George Bush de criação de uma "parceria global" que permita que a Otan organize treinamentos e um "planejamento de defesa comum" junto com países tais como o Japão e a Austrália.

Esquerda avança na América Latina
Aquém-mar, George W. Bush não só perdeu aliados como teve que assistir à volta ao poder na América Latina de antigos inimigos do seu país ou líderes identificados com a esquerda. Brasil, Venezuela, Nicarágua e Equador tiveram eleições presidenciais e elegeram (ou reelegeram) presidentes não-alinhados aos EUA. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito no Brasil e Hugo Chávez, na Venezuela. O Equador elegeu Rafael Correa e a Nicarágua, Daniel Ortega.

Ortega, o marxista que na década de 80 liderou a revolução sandinista no seu país e derrubou o ditador Anastasio Somoza, que era apoiado pelos Estados Unidos, foi eleito presidente com uma vitória incontentável no dia 5 de novembro.

Daniel Ortega é um firme aliado do cubano Fidel Castro e do venezuelano Hugo Chávez, que, por sua vez, tem mais um aliado na Bolívia, o presidente Evo Morales, eleito no fim de 2005. Hugo Chávez avalizou sua permanência por pelo mais cinco anos à frente da Venezuela no dia 5 de dezembro. Mas antes disso, irreverentemente, o presidente venezuelano demonstrou ao mundo o seu firme propósito de fazer frente aos Estados Unidos de Bush durante discurso na Assembléia Geral da ONU, no dia 20 de setembro. "O diabo está em casa. Ontem o diabo veio aqui. Este lugar cheira a enxofre", disse ele, em referência à participação do presidente americano no mesmo plenário, no dia anterior.

O Equador elegeu outro crítico do governo Bush no fim de novembro. Rafael Correa, ex-ministro da Economia do Equador que concluiu um mestrado em universidade americana, chamou Bush de "torpe" em uma recente entrevista a uma emissora de televisão e rapidamente se aliou à “ala de esquerda” recém-eleita na América Latina.

E Bush ainda perde Rumsfeld...
O ano de 2006 parece ter deixado mesmo claro que a questão do Iraque foi paradoxalmente crucial para George Bush. O que, em um primeiro momento levou às alturas a sua popularidade por parecer se tratar de uma cruzada contra o terrorismo que avançava sobre o mundo ocidental, com a mesma proporção derrubou a sua credibilidade, quando a invasão americana se transformou em um conflito sangrento que atirou o Iraque em uma guerra civil, classificada pelos próprios americanos de “um novo Vietnã”.

No dia 15 de dezembro, o secretário de Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, que comandou a invasão do Iraque, despediu-se de seu cargo no Pentágono, pouco mais de um mês após ter renunciado devido à derrota republicana nas eleições legislativas.

A queda de Rumsfeld, resultado da derrota dos republicanos, fruto do insucesso da investida norte-americana no Iraque, que veio como conseqüência da queda de popularidade e credibilidade do governo de George W. Bush fecha o ciclo de quedas, derrotas e perdas que abalaram a hegemonia americana neste 2006.
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