O país entrou em alerta na tarde de uma sexta-feira, 29 de setembro, quando a Infraero anunciou o “sumiço” do Boeing 737-800 da Gol no espaço aéreo brasileiro. Esse foi apenas o início de uma crise sem precedentes no sistema aeroportuário, provocada pelo choque entre um jato Legacy e o Boeing da Gol, o maior acidente aéreo da história do país. A morte de 154 pessoas (entre passageiros e tripulantes) do vôo 1907 não provocou somente comoção. Trouxe à tona a fragilidade do sistema aéreo e deflagrou uma crise entre o governo, os comandos da Aeronáutica e da Defesa e os controladores de vôo. O resultado foram aeroportos lotados, atrasos, vôos cancelados, insegurança e despreparo, em uma situação de quase paralisia.
A partir do acidente, as investigações começaram a apontar falhas. E a fragilidade da situação ficou ainda mais exposta com o início da operação-padrão, promovida pelos controladores do Cindacta-1, em Brasília, a partir do dia 27 de outubro. Desde então, os operadores de Brasília resolveram seguir rigorosamente as regras internacionais de espaçamento entre pousos e decolagens e limitaram o número de vôos que cada um controlava. Como existe, de acordo com a categoria, um déficit de cerca de 500 controladores e o centro monitora cerca de 85% dos vôos regulares no país (cerca de 3.000 vôos diários), a operação afetou todo o sistema.
Os operadores do controle de tráfego aéreo começaram a operação para expor suas condições de trabalho, consideradas por eles inapropriadas, distantes do recomendado pelas regras internacionais. Outro motivo para a adoção das regras foi a insistência das autoridades em afirmar que não existiam problemas no controle aéreo, logo após o acidente.
Um desses problemas é o chamado "buraco negro". Embora controladores e especialistas afirmem que existe um "ponto cego" no espaço aéreo brasileiro –o que poderia ter provocado o acidente--, a Aeronáutica tem negado a possibilidade de sua existência. Outra questão que passou a ser discutida foi a possibilidade de aumento do número de operadores civis no controle aéreo. O grupo formado para buscar soluções para a crise apontou a desmilitarização do controle aéreo como uma saída.
Picos da crise e pane
No embate entre o governo e os controladores de vôo, os passageiros saíram perdendo. Nos piores dias da crise, mais de 40% dos vôos sofreram atraso, a espera nos aeroportos superou 20 horas em alguns casos e houve cancelamentos. Confusos e sem informação, alguns passageiros chegaram a tentar invadir aeronaves. As cenas de tumulto, sono improvisado no chão de aeroportos e protestos se tornaram comuns. Dois doentes deixaram de receber transplante de órgãos devido aos atrasos.
O primeiro colapso do setor aéreo ocorreu na véspera do feriado de Finados, dia 2 de novembro, e nos dias seguintes, devido ao aumento da demanda. Duas semanas depois, os passageiros de todo o país voltaram a esperar por mais de duas horas por seus vôos. A falta de funcionários em Brasília provocou atrasos nos aeroportos em efeito cascata. Era véspera do feriado da Proclamação da República, dia 15 de novembro.
Falhas na comunicação no sistema também contribuíram para o caos nos aeroportos. Com o rompimento de um cabo de fibra ótica do Cindacta-2 (responsável pela região Sul) e o mau tempo, mais atrasos foram registrados entre os dias 19 e 20 de novembro. No dia 5 de dezembro, uma pane cortou a comunicação por rádio entre os controladores do Cindacta-1 e os pilotos. A falha de comunicação provocou ainda mais transtornos – vôos atrasados e cancelados se multiplicaram.
Após dois meses de crise, o problema do controle aéreo está longe de uma solução. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) informou no último dia 12 que a situação dos aeroportos só chegará a um "padrão ideal" a partir do final de fevereiro ou início de março. Os operadores de tráfego aéreo de Brasília, no entanto, afirmam que as negociações com a Aeronáutica estão emperradas. E a operação-padrão deve continuar. Ou seja, a crise deve ter novos capítulos em 2007.
Medidas
Enquanto os operadores afirmavam que o possível erro do controle aéreo refletia a precariedade das condições de trabalho, o governo fazia mea culpa e adotava medidas paliativas. Minimizava a precariedade do sistema, criticava as companhias aéreas por "despreparo" para a crise e sugeria insubordinação por parte dos controladores. Logo nos primeiros dias de crise, o governo determinou a suspensão das férias e abertura de concurso para controladores de vôo e a criação de um grupo com representantes de todas as vertentes para avaliar a crise. Também foram autorizadas contratações temporárias.
Medidas mais duras vieram após o caos nos aeroportos na véspera do feriado da Proclamação da República. Na tentativa de controlar a crise, o comando da Aeronáutica determinou o aquartelamento de todos os operadores do tráfego aéreo de Brasília, no dia 14 de novembro. Mesmo assim, a categoria resolveu manter a operação-padrão. Os operadores foram liberados do aquartelamento no dia seguinte.
Com o prolongamento da crise e o caos provocado por falhas no sistema de comunicação do Cindacta-1 no início do mês, o governo anunciou um pacote de medidas para evitar novos problemas. Um das principais determinações foi descentralizar o controle do espaço aéreo de Brasília. Quatro centros (São Paulo, Rio de Janeiro e Belém) deverão assumir mais responsabilidade. Outra medida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a criação do "gabinete de crise", que ficou sob o comando da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).
Investigações
Passados quase três meses desde o acidente, as investigações mostram indícios de que tanto os pilotos do Legacy quanto o controle aéreo brasileiro erraram. Segundo a Polícia Federal, os pilotos do Legacy agiram com "negligência" no acidente com o Boeing da Gol. Três controladores também foram responsabilizados pela PF.
O relatório parcial aponta que Joseph Lepore e Jan Paul Paladino voaram por mais de 50 minutos com o transponder (equipamento anticolisão) desligado. Os pilotos retornaram aos Estados Unidos no dia 8 deste mês, depois de prestar depoimento na sede da PF. Eles estavam impedidos de deixar o país havia mais de dois meses.