Vitória dos favoritos, reeleição e a manutenção dos partidos no poder no governo federal e em quatro dos seis principais Estados. Com a proibição dos "showmícios" e o desinteresse da população pelo horário eleitoral gratuito na TV (
pesquisa Datafolha apontou que menos da metade dos eleitores assistiam à propaganda obrigatória e apenas 6% dos eleitores pensavam em mudar de voto em função dela), a campanha de 2006, em geral, não gerou grandes paixões ou debates.
Na disputa presidencial, o petista Lula se reelegeu. Nos dois maiores colégios eleitorais, Minas Gerais e São Paulo, o PSDB garantiu-se no controle com vitórias ainda no primeiro turno: com 77% dos votos válidos,
Aécio Neves foi reconduzido ao cargo, e
José Serra, também com votação expressiva (quase 58%), poderá completar 16 anos de governo tucano no Estado mais rico do país. No Rio de Janeiro, foi o PMDB quem ampliou seu ciclo:
Sérgio Cabral, líder das pesquisas desde o início, sucederá Rosinha Garotinho. No Paraná,
Roberto Requião se reelegeu, conduzindo o PMDB a mais quatro anos de governo.
Entre os seis maiores Estados brasileiros, apenas na Bahia e no Rio Grande do Sul houve alternância de poder. Na Bahia,
Jaques Wagner pôs fim a 16 anos de "carlismo", contrariando as pesquisas e vencendo ainda no primeiro turno o governador Paulo Souto (PFL), aliado de Antonio Carlos Magalhães. No Rio Grande do Sul, a tucana
Yeda Crusius, eleita governadora, e o petista Olívio Dutra desbancaram o governador Germano Rigotto (PMDB), que não passou ao segundo turno.
Eleição presidencial
Luiz Inácio Lula da Silva, que termina seu primeiro mandato com
índices recordes de popularidade, precisou de dois turnos para confirmar o favoritismo que as pesquisas lhe atribuíam sobre o tucano Geraldo Alckmin.
Dados positivos como quase 5 milhões de empregos com carteira assinada, redução de 19% da miséria em dois anos (de acordo com pesquisa da FGV divulgada em setembro) e 11,1 milhões de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família (a partir de junho de 2006) que o governo Lula logrou apresentar foram mais fortes, aos olhos dos eleitores, do que a sucessão de escândalos em que integrantes da administração e do PT se envolveram ao longo de 2006 ou das propostas apresentadas pelos outros candidatos.
Lula começou a campanha viajando, inaugurando obras e, baseado no favoritismo concedido pelas pesquisas, optou por não participar dos debates na TV. Ao mesmo tempo em que dados comparativos entre seu governo e o de Fernando Henrique Cardoso o favoreciam, o petista acabou sofrendo desgaste por denúncias de corrupção e irregularidades envolvendo membros de seu governo ou de seu partido.
A um mês antes das eleições, o ex-secretário do governo Lula Luiz Gushiken foi acusado, em relatório do TCU, de indícios de desvio de R$ 11,7 milhões da Secom na confecção de cartilhas elogiando Lula. O maior golpe, entretanto, ainda estaria por vir. Duas semanas depois, dois petistas foram presos em hotel de São Paulo com R$ 1,7 milhão (entre dólares e reais). O dinheiro seria para a compra de um dossiê contra os tucanos. Lula classificou como "abominável" o ato e chamou os envolvidos, entre eles amigos de longa data, como Oswaldo Bargas e Jorge Lorenzetti, de "aloprados". Também incluído nas denúncias, Ricardo Berzoini, coordenador da campanha e presidente do PT, pediu afastamento.
O episódio, aliado à ausência de Lula no último debate, na TV Globo, a três dias das eleições -permitindo que seus adversários o atacassem e dando a impressão de que estava fugindo da necessidade de dar explicações referentes à crise do dossiê-, acabou levando a decisão ao segundo turno, contra Geraldo Alckmin.
O tucano, que conduzia sua campanha em tom morno, mostrou agressividade no primeiro debate do segundo turno, atacando o presidente com veemência. E se aliou a Anthony Garotinho, em movimento condenado por seus apoiadores no Rio. Assim, Alckmin logo caiu nas pesquisas. E Lula assumiu uma vantagem que não mais diminuiria. Ao contrário -o tucano acabou protagonizando um fato inédito na história das eleições presidenciais: obteve menos votos no segundo turno do que no primeiro, perdendo cerca de 2,5 milhões de eleitores.
Lula acabou reeleito com 58,3 milhões de votos (60,83% dos votos válidos, contra 39,17% de seu oponente), baseado principalmente nos votos dos mais humildes: nas 500 localidades do país mais atrasadas, a supremacia de Lula foi total. No Nordeste, região onde está o maior número de beneficiados pelo Bolsa Família, Lula ganhou em todos os Estados e bateu outro recorde: com 77% dos votos válidos, conseguiu a maior votação proporcional de um candidato numa das cinco regiões do país desde 1945.