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Polêmica e promissora, pesquisa com embriões continua sub judice no Brasil

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Células adultas da pele, manipuladas por cientistas com a inserção de genes para que se comportem como células embrionárias, capazes de se diferenciar

Tatiana Pronin

Editora de Ciência e Saúde

Desde o anúncio, há dez anos, do nascimento da ovelha Dolly, gerada a partir da clonagem de uma célula adulta, poucos temas de ciência têm despertado tanta polêmica quanto as pesquisas com células-tronco embrionárias .

Capazes de formar qualquer órgão ou tecido, essas células possuem um enorme potencial terapêutico, bem maior que o das células extraídas do cordão umbilical ou da medula óssea, que são mais especializadas. Outra característica dessas células é a auto-replicação, ou seja, elas podem gerar inúmeras cópias idênticas de si mesmas.

Conhecer as células embrionárias a fundo vai permitir aos pesquisadores conhecer melhor a origem das mais diferentes doenças e desenvolver tratamentos para problemas ainda sem solução, como o Parkinson e outros males degenerativos.

O problema é que, para obter essas células de poder quase ilimitado, é necessário destruir embriões, o que desperta questões éticas e filosóficas.

A Lei de Biossegurança (nº 11.105/2005), aprovada no país á dois anos, permite que casais submetidos a técnicas de reprodução assistida doem para pesquisa os embriões descartados durante o tratamento. Para isso, eles devem ser inviáveis para de fertilização e estar congelados há pelo menos três anos.

No entanto, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI nº 3.510), ajuizada em maio de 2005 pelo então procurador-geral da República Cláudio Fonteles, colocou um obstáculo para os cientistas. De acordo com o autor do questionamento, a Lei fere o direito à vida.

O entrave levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a convocar a primeira audiência pública de sua história, em abril deste ano. Mais de 30 pesquisadores contrários e favoráveis ao uso de células-tronco embrionárias apresentaram-se aos magistrados. O primeiro grupo discursou sobre possíveis alternativas à destruição dos embriões, como a reprogramação de células-tronco adultas. O segundo ressaltou que ainda é preciso conhecer profundamente as células embrionárias para que seja possível, na prática, substituir tecidos ou órgãos doentes. Na balança, o velho debate sobre quando a vida começa.

O ministro Ayres Britto, que desde então prepara seu voto, chegou a declarar que o assunto seria levado a plenário ainda no mês de dezembro, mas a votação foi adiada para o ano que vem. Enquanto isso, dizem os cientistas, os estudos com células-tronco embrionárias estão parados nos conselhos de ética das instituições de pesquisa.

Células reprogramadas

Recentemente, dois estudos reforçaram o coro dos cientistas contrários ao uso de embriões nas pesquisas. Uma equipe japonesa, conduzida por Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, e outra norte-americana, liderada por James Thomson, da Universidade de Wisconsin, conseguiram transformar células da pele humana em células-tronco pluripotentes, ou seja, com capacidade de gerar tecidos e órgãos. Em ambos os casos, a reprogramação foi conseguida a partir da inserção de genes nas células por meio de um retrovírus. As duas técnicas apresentam riscos de mutação, problema que representa um desafio para pesquisadores de células-tronco.

O fato chegou a ser comemorado até pelo Papa Bento 16 e pelo presidente dos EUA George Bush, que freqüentemente discursam contra o uso de células-tronco embrionárias.

Para a pesquisadora Lygia Pereira, chefe do laboratório de genética molecular da Universidade de São Paulo (USP), as pesquisas abrem um novo e promissor caminho de investigação, mas não diminuem a relevância das pesquisas com embriões. "É como o rascunho de uma obra de arte. É preciso estudar muito bem o original para produzir uma cópia indistinguível", compara.

Clonagem terapêutica

Se o consenso em torno do uso de embriões para obtenção de células-tronco é difícil até em países avançados nesse tipo de pesquisa, como os EUA, pensar na possibilidade de extraí-las a partir de embriões clonados é uma possibilidade distante e não só devido às questões éticas envolvidas. A técnica de transferência nuclear tornou o clone possível, mas sua eficiência ainda é baixa, como afirma seu próprio criador, o embriologista inglês Keith Campbell.

Em novembro, a revista "Nature" publicou o feito de uma equipe norte-americana que conseguiu obter células-tronco embrionárias de um primata por meio de clonagem, o que abriria espaço para que o mesmo fosse feito com humanos.

Liderados por Shoukhrat Mitalipov, do Centro Nacional de Primatologia do Oregon, em Portland (EUA), os cientistas conseguiram produzir 21 embriões de cem células, chamados de blastocistos. Mas a técnica ainda precisa ser validada, como é de praxe em ciência, o que demanda tempo. Como se vê, a distância entre os laboratórios e a prática médica é maior do que muita gente gostaria de acreditar.

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