UOL Últimas NotíciasUOL Últimas Notícias
UOL BUSCA

Selo
Selo
ARQUIVOS

Publicidade

2007: o ano em que o clima esquentou para além das fronteiras políticas

Crédito

Barrados por militares, monges sentam-se durante protesto em Yangun, Mianmar

Edilson Saçashima

Do UOL Mídia Global

Em meados de setembro, um grupo de monges abandonou a vida de meditações no mosteiro para tomar as ruas de Mianmar em protesto contra o governo dominado por uma junta militar. Em poucos dias, a imagem daqueles religiosos de cabeças raspadas e túnicas cor de açafrão ganhou destaque nos sites, nos jornais e nas televisões de todo o mundo. Naquele momento, a revolução tecnológica representada pela Internet e pelos meios de comunicação parecia ser capaz de driblar um regime ditatorial e atravessar a fronteira de um dos países mais isolados do planeta. Era a expressão perfeita do termo "aldeia global", cunhado por Marshall McLuhan no século passado. Estaríamos diante de um mundo, enfim, sem fronteiras.

De certa forma, o caso de Mianmar pode resumir o que foi o ano 2007 no cenário internacional. Não por revelar um mundo globalizado ou sem fronteiras, mas por nos sugerir o quanto o mundo ainda está associado à idéia de "aldeia", à questão local. Mianmar mostra o quanto a "aldeia" se sobrepôs à globalização neste ano. Basta lembrar que a revolta dos monges terminou como tantas outras que ocorrem em países comandados por regime autoritário: com repressão e censura. E talvez seja emblemático que o silêncio dos revoltosos seguiu em paralelo com o desaparecimento de relatos sobre os acontecimentos na Internet. Em algumas semanas, Mianmar voltou à sua discreta existência, alheia aos olhos do planeta.

Na mesma época, o Paquistão, localizado mais a oeste de Mianmar, também começava a viver dias turbulentos. O presidente do país asiático, Pervez Musharraf, teve sua reeleição, ocorrida no começo de outubro, contestada pela Suprema Corte e pela oposição. Foi o primeiro rastilho de pólvora que culminou na explosiva crise institucional vivida pelo país, dono de um arsenal nuclear. Mas esse detalhe quase não apareceu no noticiário. Musharraf não parecia preocupado em usar tanques e mísseis, mas em calar a oposição com cassetetes e balas. Sua atenção não se voltava para além da fronteira. Tratava-se de uma questão essencialmente doméstica, por mais que ela afetasse Washington e o combate ao terror, pois o Paquistão é conhecido por abrigar radicais muçulmanos. Com o assassinato de Benazir Bhutto em dezembro, o cenário tende a mudar em 2008.

De olho no umbigo
Se as ditaduras agitavam esses países asiáticos, na Europa eram as eleições democráticas que detonavam as crises. Na Bélgica, o sucesso nas urnas do partido Democrata Cristão flamengo, de Yves Leterne tornou explícita a divisão do país entre o norte flamengo, que fala holandês, e o sul valão, onde o idioma predominante é o francês. O líder, de origem flamenga, prometeu entregar poderes do governo central em Bruxelas para as regiões do país, o que, na prática, transformava a Bélgica federalista em um tipo de confederação de Estados. Seria a implosão de um país. Curiosamente, foi a associação entre a Bélgica, a Holanda e Luxemburgo conhecida como Benelux, há quase 50 anos, que serviu como embrião do que hoje é a União Européia.

Na França, Nicolas Sarkozy foi eleito com um discurso duro contra a imigração e fazendo a defesa de uma identidade nacional, no que parecia ser a expressão de um nacionalismo "soft". Tanta ênfase ao plano interno só tornou mais irônico o que o destino lhe reservava. Com poucos meses no Palácio do Eliseu, sede do governo francês, Sarkozy teve que enfrentar problemas internos em duas frentes. Em outubro, uma onda de greves varreu a França, ao mesmo tempo que o presidente vivia o processo de divórcio com Cécilia Sarkozy após um casamento de 11 anos.

Olhar para o próprio umbigo parece ter sido o mote também das eleições na América Latina. Na Argentina, Cristina Kirchner foi eleita com a promessa de ser uma extensão do governo de seu marido e antecessor, Néstor Kirchner. Das poucas plataformas que distinguiram Cristina de Néstor foi seu projeto de política externa. A nova presidente prometeu dar maior atenção às relações internacionais, algo praticamente ignorado por seu marido.

'Por qué no te callas?'
Ao contrário de sua colega argentina, o presidente da Bolívia, Evo Morales, parece estar envolvido totalmente com as questões referentes ao seu país. Nesse sentido, a nova Constituição boliviana, votada a toque de caixa em uma jornada de 16 horas em dezembro, é exemplar ao dar maiores poderes aos indígenas e ao Estado.

Na Venezuela, Hugo Chávez também esteve envolvido em fortalecer o seu poder interno. Em referendo, Chávez tentou promover uma reforma constitucional, que permitiria a reeleição para presidente por um número indeterminado de vezes. As urnas, no entanto, derrotaram as pretensões chavistas.

Porém, é uma frase que irá marcar o ano de Hugo Chávez, mas não uma proferida pelo presidente falastrão, mas pelo rei Juan Carlos I, da Espanha. Durante a Cúpula Ibero-Americana, realizada no Chile em novembro, o rei espanhol se voltou a Chávez e disse: "por qué no te callas?" ('por que não se cala?'). Era uma reprovação do monarca às críticas do presidente venezuelano ao ex-presidente espanhol José María Aznar. Foi a resposta da ex-metrópole para que sua ex-colônia cuidasse de sua própria vida, uma espécie de grito de independência às avessas.

O poderoso dos EUA
Nem mesmo os EUA ficaram imunes aos problemas internos. Enquanto republicanos e democratas iniciavam a corrida para suceder George W. Bush, o presidente americano via duas peças importantes de sua tropa de choque caírem: o estrategista político Karl Rove e o secretário da Justiça Alberto Gonzales.

Parecia ser o início do apagar das luzes do governo Bush, no mesmo momento em que outra figura política retornava aos holofotes: Al Gore. A metáfora da gangorra se encaixava com perfeição para a situação: em 2000, George W. Bush derrotava Al Gore na corrida presidencial dos EUA. O ano de 2007 marcava a volta por cima de Gore e a queda de Bush.

Mas não se trata apenas de uma reviravolta política. Aascensão de Gore revela que, em 2007, o assunto que realmente preocupou o mundo foi o aquecimento global.

Os votos obtidos por Al Gore em 2007 foram de colégios eleitorais especiais. No primeiro semestre, o ex-candidato democrata à presidência foi eleito por Hollywood para receber o Oscar pelo documentário "Uma Verdade Inconveniente", um discurso contra o aquecimento global. O mesmo tema levou Al Gore a receber o Prêmio Nobel da Paz, no segundo semestre. Eram sinais de que a política, aquela que tem responsabilidade por organizar a vida do homem em busca de um bem-estar comum, já não poderia se desvencilhar da questão do aquecimento global.

Em 2007, os temas políticos tradicionais pareceram problemas localizados. O despertar para a questão da mudança climática foi, enfim, o grande tema da política mundial. Enfrentar o aquecimento global passou a ser o grande desafio a ser enfrentado por governos e sociedades. Se buscarmos um sentido para o que o mundo nos mostrou em 2007, essa parece ser a sua principal mensagem.

As principais notícias no Brasil e no mundo em 2007

Memória

Relembre mortes emblemáticas do ano

Economia

Brasileiro se anima e se assusta com as apostas na Bolsa

Tragédia

199 pessoas morrem no pior acidente aéreo da história do país

Brasil

Acidentes de grandes proporções marcam o ano

Educação

Estudantes adotam invasão de reitorias como tática de protesto em 2007

Tecnologia

O ano de iPhone e TV digital, realidades distantes do brasileiro

Ciência e Saúde

Polêmica e promissora, pesquisa com embriões continua sub judice no Brasil

Internacional

O ano em que o clima esquentou para além das fronteiras políticas

Política

Renan Calheiros "sangra" por sete meses até renunciar à presidência do Senado

Tablóide

2007 foi um grande UOL Tablóide