Por Oliver Bullough and Richard Ayton
BESLAN, Rússia (Reuters) - Crianças seminuas e cobertas de sangue corriam aterrorizadas pelas ruas, agarrando com desespero garrafas de água oferecidas por médicos enquanto tiros, gritos e ambulâncias eram ouvidos.
A ocupação de uma escola na cidade de Beslan, na Ossétia do Norte (Rússia), terminou na sexta-feira em cenas de grande confusão e com um número ainda desconhecido de mortos entre os até 1.500 adultos e crianças mantidos reféns por separatistas chechenos por mais de dois dias.
Corpos foram encontrados na escola e cerca de 400 pessoas ficaram feridas, afirmaram autoridades russas segundo a agência de notícias Itar-Tass. Um repórter de um canal de TV da Grã-Bretanha disse que seu cinegrafista viu até cem corpos dentro do ginásio da escola, onde a maior parte dos reféns era mantida.
Uma série de ambulâncias deixou o local carregando corpos, muitos dos quais aparentemente sem vida.
"Quebrei uma janela para sair dali", disse um menino com uma bandagem na mão. "As pessoas estavam correndo em todas as direções. Eles (os rebeldes) atiravam do telhado."
Perto dos portões da escola, podiam ser vistos seis corpos cobertos com lençóis. Um dos corpos era de uma garota seminua com cerca de 16 anos de idade. O outro, o de um menino com menos de 1 metro de altura.
Homens e mulheres corriam pelo local, cobrindo a boca com as mãos e levantando os lençóis para ver se reconheciam os corpos. Um homem de 40 anos ajoelhou-se perto de um corpo, chorando com o rosto coberto.
REUNIÕES
Os que tiveram sorte entre os parentes postados do lado de fora da Escola de Ensino Médio Número 1 protagonizaram reencontros cheios de emoção com as crianças, que vestiam apenas suas roupas de baixo por ordem dos sequestradores. Elas ficaram por dois dias presas no ginásio da escola sem água e sem comida.
Uma mãe em lágrimas acariciava o cabelo loiro de seu filho. Uma avó tocava o rosto ensanguentado de seu neto.
Enquanto o tiroteio continuava, ao menos alguns os sequestradores conseguiam fugir da escola e eram perseguidos por soldados russos. Uma grossa nuvem de fumaça saía da escola.
Dezenas de carros de civis dirigiram-se em alta velocidade para o local. Aparentemente, tratava-se de alguns pais desesperados para descobrir o paradeiro de seus filhos.
Também houve manifestações de fúria nessa região de maioria ortodoxa, de composição étnica diferente da Chechênia e da Inguchétia, áreas de maioria muçulmana.
Uma multidão com cerca de 200 pessoas começou a atacar um homem de pele morena que tinha a aparência de checheno. A polícia disparou tiros para o alto e conseguiu dispersar os agressores.
Outros tentavam tratar dos feridos nos hospitais locais, onde cerca de mil leitos haviam sido preparados, disseram autoridades da área de saúde à agência de notícias Interfax.
"Todos para o hospital, rápido! Os feridos vão precisar de sangue!", gritava um policial. Uma mulher em um vestido rosa, colocado as festividades realizadas no primeiro dia de aula, quando os rebeldes atacaram, desmaiou ao escapar do local e foi levada em uma maca por paramédicos militares.
Garotas assustadas ainda usavam os cabelos decorados com faixas brancas, agora todas sujas.