Por Mohammed Assadi
RAMALLAH, Cisjordânia (Reuters) - Yasser Arafat ocupou os palcos mundiais durante décadas como símbolo da luta palestina por um Estado independente, mas passou seus últimos anos isolado e confinado nos quartos úmidos de um quartel-general semidestruído.
Ao lado de um grupo de exilados palestinos, Arafat formou sua primeira célula revolucionária em 1958, durante a Guerra Fria -- quando o presidente Dwight D. Eisenhower estava no comando dos Estados Unidos, Nikita Khruchov, à frente da União Soviética e Fidel Castro ainda comandava a guerrilha nas selvas cubanas.
Arafat era acusado por Israel e pelos EUA de ser um terrorista quando Osama bin Laden ainda era um menino. À época, o palestino ingressou na galeria de ícones da luta pela libertação nacional de seu povo, com seu turbante preto e branco e seu uniforme verde-oliva.
Depois de renunciar a "todas as formas de terrorismo" e à guerra para destruir Israel, ele chegou ao ápice de sua vida política, em 1993, com os acordos de paz interinos assinados em Oslo, que lhe permitiram regressar para sua terra. No ano seguinte, ele recebeu o Nobel da Paz ao lado de líderes israelenses.
Mas os sorrisos e os raios de sol nas fotos mostrando o aperto de mão que selou os acordos no jardim da Casa Branca (sede do governo norte-americano) não se pareciam em nada com o quartel-general em estado miserável a que Israel o confinou nos últimos dois anos e meio, e onde ele viveu um declínio concluído apenas com sua morte.
O ministro palestino das Relações Exteriores, Nabil Shaath, disse que a doença dele, não explicada completamente pelos médicos, havia sido uma "espécie de reação em cadeia" piorada pelo estado do pequeno e pouco ventilado quarto em que vivia.
Acusado por Israel de fomentar a violência depois do fracasso das negociações de paz em 2000 e colocado de lado pelos EUA, Arafat temia que, se saísse dos territórios palestinos, o governo israelense nunca mais o deixaria regressar.
O prédio em que estava foi usado no passado como uma prisão por autoridades britânicas, jordanianas e israelenses e acabou por se transformar em um pequeno conjunto de celas para o ex-guerrilheiro.
O complexo ficou semidestruído em combates travados em 2002. Buldôzeres israelenses reduziram a maior parte dele a destroços e ferro retorcido.
Os aposentos de Arafat continuaram protegidos por sacos de areia e ele raramente saía do quarto sem janelas, temendo talvez que Israel usasse um franco-atirador para cumprir suas ameaças de matá-lo.
Afastado da mulher, Suha, que preferiu morar no exterior junto com a filha deles, de 10 anos, o líder palestino dormia em uma cama de solteiro, em um canto escuro, até ser levado para a França, no dia 29 de outubro, a fim de receber tratamento médico.
Em seus arquivos havia muitas imagens, agora emboloradas, de Arafat ao lado de pessoas famosas com as quais adorava ser fotografado. Algumas vezes, nos últimos anos, ele as mostrava para alguns de seus visitantes menos ilustres.
Arafat deve ser enterrado no quartel-general, chamado de Muqata, no sábado, depois de um funeral a ser realizado no Cairo (Egito), na sexta-feira.