Por Edmund Blair e Fiona O'Brien
CAIRO, Egito (Reuters) - O caixão com o corpo de Yasser Arafat, envolvido em uma bandeira palestina, foi levado por uma carruagem puxada a cavalo até uma base aérea no Cairo, na sexta-feira, em uma cerimônia fúnebre à qual compareceram vários líderes mundiais.
O presidente palestino, um ex-guerrilheiro que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, será enterrado mais tarde na sede de seu governo em Ramallah, onde passou os últimos anos de vida confinado por Israel sem ter conseguido ver transformado em realidade seu sonho de fundar um Estado palestino.
Horas antes, dirigentes de mais de 50 países aguardaram dentro de uma tenda vermelha enquanto o caixão, envolvido na bandeira preta, vermelha, verde e branca dos palestinos, era colocado na tradicional carruagem.
Depois de uma pequena caminhada, o caixão passou para dentro de um avião para ser levado até Ramallah.
Mas muitas ruas próximas da base militar estavam fechadas para pessoas comuns e tomadas por policiais, refletindo a preocupação do governo egípcio com a segurança dos líderes estrangeiros. Soldados no alto de prédios vigiavam a área com binóculos.
O presidente do Egito, Hosni Mubarak, ao lado de vários líderes árabes, entre os quais o dirigente da Arábia Saudita, príncipe herdeiro Abdullah, encabeçou a procissão acompanhada de honras militares. A viúva de Arafat, Suha, e a filha dele, Zahwa, estavam presentes.
Um grupo de dirigentes palestinos, entre os quais Mahmoud Abbas e Farouk Kaddoumi, recebeu horas antes os votos de condolência pela morte de Arafat, que representou os palestinos por mais de 50 anos e que morreu em um hospital da França na quinta-feira, aos 75 anos de idade.
Abbas sucedeu Arafat na Presidência do comitê executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), enquanto Kaddoumi, um membro da linha-dura, ocupa agora a liderança do movimento Fatah, outro cargo detido pelo dirigente morto.
O Egito realizou a cerimônia fúnebre porque, devido à ocupação israelense dos territórios palestinos, muitos dos líderes estrangeiros teriam dificuldades para participar dela caso fosse realizada lá.
Ao menos 16 chefes de Estado e de governo, a maior parte deles de países árabes e muçulmanos simpáticos à causa palestina, compareceram à base militar.
A maior parte dos governos europeus, que resistiram às tentativas de Israel e dos EUA de isolar o líder palestino, enviaram seus chanceleres para representá-los. O governo israelense decidiu boicotar o evento e os EUA mandaram para a cerimônia apenas uma autoridade de seu Departamento de Estado.
Entre os líderes presentes, estavam também o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, o rei Abdullah, da Jordânia, o presidente do Líbano, Emile Lahoud, e o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe.
Compareceram ainda os presidentes da Argélia, de Bangladesh, do Iêmen e da Indonésia bem como os primeiros-ministros da Turquia, do Paquistão e da Suécia. Entre os países que enviaram chanceleres estavam a França, a Alemanha, a Grã-Bretanha, a Espanha e o Irã. O Brasil enviou o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
CAIXÃO DE CONCRETO
Arafat deve ser enterrado em Ramallah em um caixão móvel de concreto -- algo incomum, mas que possibilitaria o eventual envio de seus restos mortais para Jerusalém no futuro.
Biógrafos do líder palestino dizem que ele nasceu no Cairo, mas Arafat conta ter nascido na cidade sagrada.
Ele falava árabe com um sotaque marcadamente egípcio e deu início a sua militância no Cairo, nos anos 1950, sob o patrocínio do líder nacionalista árabe Gamal Abdel Nasser, então presidente do Egito.
Arafat ficou afastado do território egípcio por seis anos depois de o presidente Anwar Sadat, então comandante do país, ter viajado para Jerusalém e ter rompido com o consenso árabe de não negociar com o Estado judaico.
Mas, após afastar-se da Síria e das facções palestinas radicais em 1983, Arafat retornou para o Cairo e, desde então, via no presidente Mubarak um mentor e um aliado na campanha por fundar um Estado palestino.
O funeral realizado no exílio -- Arafat preferiria que a cerimônia acontecesse em Jerusalém -- reflete o fato de que o líder palestino não conseguiu ver realizado seu sonho de fundar um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, uma pequena fração da Palestina histórica, hoje transformada, em sua maior parte, em Israel.
Mas Arafat era a figura mais influente de um movimento nacionalista iniciado como uma aliança frágil de alguns grupos guerrilheiros. Depois de 40 anos de luta, o dirigente acabou conseguindo o apoio dos EUA para a solução do conflito entre israelenses e palestinos por meio da convivência de dois Estados.
Seus últimos anos de vida, porém, foram conturbados. Israel e os EUA acusaram-no de ter perdido a chance de selar a paz em 2000, de dirigir um governo corrupto e de encorajar os ataques contra civis israelenses.
Militantes islâmicos desafiaram sua autoridade dentro dos territórios palestinos, mas nunca deixaram de reconhecer seu papel de destaque como o líder que levou a luta palestina ao conhecimento do mundo.