Por Linda Sieg
TÓQUIO (Reuters) - Uma comissão japonesa disse na terça-feira que deixar uma mulher ocupar o trono do Crisântemo é uma das melhores alternativas para resolver a crise sucessória em uma das monarquias mais antigas do mundo.
O assunto é polêmico por causa de uma lei que restringe aos homens o cargo de imperador do Japão e pelo fato de há quatro décadas não nascerem meninos na família imperial.
O diretor da comissão ressaltou, entretanto, que nenhuma conclusão foi tomada. Analistas dizem que os especialistas devem ceder à pressão dos conservadores e estipularem que a ascensão feminina ao trono será uma exceção ao princípio da sucessão masculina.
O príncipe herdeiro Naruhito, 45, e sua esposa, Masako, 41, foram pais apenas uma vez. A princesa Aiko tem hoje 3 anos.
Outras opções apresentadas pela comissão são recriar as 11 casas principescas, abolidas ao final da Segunda Guerra Mundial, ou autorizar a adoção de um herdeiro entre os plebeus.
Mas o relatório da comissão disse que dificilmente essas medidas teriam apoio da opinião pública. As recomendações finais do grupo devem ser divulgadas até o final do ano.
Muitos parlamentares, do governo e da oposição, e a ampla maioria do eleitorado defendem uma revisão da Lei da Casa Imperial, de forma a permitir que uma mulher assuma um trono que não tem importância política, mas é cheio de tradições e simbolismos.
Apesar do apoio popular à tese, os debates entre os dez membros da comissão são delicados, pois ultraconservadores querem preservar a linhagem masculina, que remonta, segundo eles, a 2.600 anos.
"Este relatório não indica nenhuma direção específica," disse o chefe da comissão, Hiroyuki Yoshikawa, ex-reitor da Universidade de Tóquio, em entrevista coletiva.
Ele afirmou que a história é um pressuposto básico do debate, mas que a opinião pública também tem muito peso.
A Lei da Casa Imperial, em vigor desde 1947, estipula que apenas herdeiros masculinos que tenham imperadores no ramo paterno podem ascender ao trono. Uma mudança nessa lei poderia permitir que Aiko se tornasse a primeira imperatriz (não consorte) na era moderna.
Observadores dizem que o tempo para a decisão está se esgotando, já que os herdeiros imperiais normalmente começam a receber o treinamento para o trono por volta de três anos de idade.
O Japão já teve oito princesas ocupando o trono, a última delas no século 18. Mas os tradicionalistas salientam que nenhuma delas passou o poder a seus próprios filhos.
Os pragmáticos argumentam que permitir um reinado feminino é a melhor forma de manter a instituição imperial.
Mas continua a discussão sobre se o trono deve ser reservado sempre ao primogênito, independentemente de seu sexo, ou se um irmão mais novo ou mesmo outro parente homem teria precedência.
A comissão mencionou essas opções, mas não tirou conclusões. "Eles querem preservar a tradição, mas também precisam ser práticos," disse Yasunori Sone, professor da Universidade Keio. "Acho que eles vão recomendar o reconhecimento de uma imperatriz como exceção, mas preservando o princípio da linhagem masculina."
A crise sucessória é simbolizada pelo drama de Masako, uma ex-diplomata de carreira, antes muito ativa, que passou mais de um ano sem cumprir sua agenda devido a um transtorno mental provocado pela dificuldade em se adaptar à vida real -- o que inclui, segundo muitos observadores da realeza, a cobrança para gerar um herdeiro.
Em 2004, Naruhito, primeiro na linha sucessória, veio a público falar em termos surpreendentemente duros sobre os problemas da sua mulher. Em entrevista coletiva, ele afirmou que a princesa "ficou completamente exausta" tentando se adaptar à vida imperial.