Por Evelyn Leopold
DAVOS, Suíça (Reuters) - O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, disse na quarta-feira a líderes empresariais de todo o mundo que, durante seus dez anos no cargo, a entidade se abriu a "uma nova mentalidade" a respeito de direitos humanos, leis, a natureza da guerra e o papel das corporações.
Na sua despedida do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Annan disse que o legado de seu mandato, que termina em dezembro, é ir além dos governos, cooptando também empresas, celebridades e ONGs para promovem o trabalho da ONU.
Os anfitriões foram uma surpresa: a atriz Angelina Jolie, embaixadora da boa-vontade da ONU para refugiados, e o ator Brad Pitt, de quem ela está grávida. Os dois conversaram com Annan depois do seu discurso e ficaram para uma conferência.
Ironicamente, no evento havia três possíveis candidatos a sua sucessão: o chanceler sul-coreano Ban Ki-Moon, o assessor presidencial Jayanthan Dhanapala, de Sri Lanka, e a presidente da Letônia, Vaira Vike-Freiberga.
"E meu sucessor -- pois entendo que vários membros desta conferência podem se interessar pela posição -- não precisa se preocupar", disse Annan. "Mudar a mentalidade da ONU, para que possa refletir e influenciar o espírito do tempo, é um desafio interminável."
Olhando para o futuro, Annan previu que a ONU se envolverá em turbulências, "seja uma iminente crise nuclear por causa do Irã, a continuação das atrocidades em Darfur ou a ameaça da pandemia de gripe aviária".
Segundo ele, as pessoas esperam que a ONU "faça a paz, proteja civis, melhore as condições de vida, promova os direitos humanos e mantenha o direito internacional".
Desde 1999, ele alerta que o genocídio e outros crimes de massa não podem ser tratados simplesmente como assuntos nacionais. "Sendo corretamente chamados de crimes contra a humanidade, eles exigem uma resposta coletiva da humanidade, que deve ser organizada e legitimada pelas Nações Unidas."
Annan lembrou que no seu primeiro discurso em Davos, em 1999, propôs um "pacto global" entre a ONU e o setor privado. "(Muita gente) Não ficaria mais chocada se eu propusesse um pacto com o demônio", afirmou.
"Meu objetivo é convencer tanto os Estados membros (da ONU) e os meus colegas do secretariado de que a ONU precisa se envolver não só com governos, mas com pessoas."
O pacto proposto por Annan, batizado em inglês de Global Compact, é um grupo voluntário de empresas e entidades que promovem a responsabilidade social, pressionando a iniciativa privada a produzir relatórios públicos sobre seu impacto social. Cerca de 2.400 empresas de quase 90 países participam.
Citando as 16 missões de paz às quais a ONU foi convocada, Annan disse que é preciso considerar as causas da guerra e como fazer a paz posteriormente.
"A ONU se tornou, de fato, o mecanismo indispensável para trazer ajuda internacional a países que se recuperam de conflitos", disse ele.
"Esta nova mentalidade deve também se ampliar para o domínio da paz e da segurança internacionais -- para que pensemos na segurança não só em termos convencionais, concentrando-nos na prevenção das guerras entre Estados, mas também incluindo a proteção dos povos do mundo contra ameaças que, para muitos deles, parecem mais imediatas e mais reais."
Annan lembrou inovações dos últimos dez anos no direito internacional, como a criação do Tribunal Penal Internacional, mas não citou o programa de troca de petróleo por comida no Iraque, que terminou num inquérito que responsabilizou o secretário-geral por não perceber uma corrupção generalizada na iniciativa de 64 bilhões de dólares.
UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)