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 Internacional

15/02/2006 - 18h49
UE dá apoio à Dinamarca na crise das caricaturas

Por Ingrid Melander

ESTRASBURGO, França (Reuters) - a União Européia deu na quarta-feira apoio à Dinamarca na crise desencadeada por caricaturas que ridicularizavam o profeta Maomé, embora líderes do Parlamento europeu tenham se desentendido sobre os limites da liberdade de expressão.

As caricaturas dinamarquesas, reproduzidas depois em várias partes do mundo, provocaram grande repercussão negativa nos países muçulmanos. Embaixadas da Dinamarca e de outros países europeus foram atacadas na Síria, no Líbano, no Irã, no Paquistão e na Indonésia.

Durante a sessão especial do Parlamento Europeu, líderes de todas as facções políticas saíram em apoio à Dinamarca, declarando que os ataques ao país nórdico representavam um ataque a todos os Estados do bloco, e condenaram a violência empregada por alguns manifestantes islâmicos.

Os liberais alertaram contra qualquer tentativa de impor a auto-censura aos meios de comunicação. "Quero hoje enviar minha solidariedade ao povo da Dinamarca", disse o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso. "(Os dinamarqueses) são um povo que com razão têm uma reputação de estarem entre os mais abertos e tolerantes não só na Europa, mas no mundo."

Há um boicote a produtos dinamarqueses em alguns países islâmicos, e Barroso foi muito aplaudido quando declarou que isso equivale a um boicote à União Européia como um todo.

O líder do Partido Verde no Parlamento Europeu, Daniel Cohn-Bendit, criticou empresas como a francesa Carrefour e a suíça Nestlé por divulgarem anúncios em países islâmicos explicando que não são de origem dinamarquesa e não usam produtos dinamarqueses.

Ele e a porta-voz liberal Karen Riis-Joergensen pediram à Comissão Européia que abandone a proposta de incentivar a imprensa a adotar um código voluntário de conduta que impeça ofensas a sensibilidades religiosas.

"Se começarmos a solapar a liberdade de expressão, nosso direito de analisar qualquer religião criticamente, nosso direito fundamental de falar livremente e de nos expressar serão violados", disse Riis-Joergensen.

Uma resolução a ser adotada na quinta-feira diz que a liberdade de expressão deve ser exercida com responsabilidade, mas não critica a publicação das caricaturas nem propõe um código de conduta.

"A liberdade de expressão deve sempre ser exercida com responsabilidade e com respeito aos direitos humanos, sentimentos e crenças religiosas", disse o texto, aprovado por todos os grupos políticos. A independência da mídia, afirma a resolução, "não pode ser prejudicada por nenhum indivíduo ou grupo que se sinta ofendido."

PELA AUTO-CENSURA

Mas o presidente da Áustria, Heinz Fischer, cujo país ocupa a presidência da UE neste semestre, foi à sessão do Parlamento Europeu para pedir a auto-censura.

"Se a proibição da representação pictórica (do profeta Maomé) constitui um elemento essencial de uma religião, não se deve ofender este princípio duas vezes -- não só desrespeitando a proibição, mas também reforçando essa dolorosa violação de um tabu na forma de uma caricatura", afirmou.

O líder do Partido Popular Europeu, de centro-direita, Hans-Gert Poettering, propôs que a UE e a Organização da Conferência Islâmica nomeiem uma comissão que analisaria a existência de preconceitos étnicos e religiosos nos livros escolares.

Agitando revistas publicadas em países muçulmanos, ele disse haver "documentação de centenas de charges e caricaturas que zombam dos nossos valores e da nossa religião". "Então, essas charges existem no mundo islâmico também."

A proposta de resolução diz que a liberdade de expressão é regularmente violada em países onde houve manifestações e violência. O texto se solidariza com jornalistas da Jordânia, do Egito e da Argélia que foram presos por reproduzirem as caricaturas.

Poul Nyrup Rasmussen, ex-primeiro-ministro socialista da Dinamarca, se disse chocado com os ataques a cidadãos, embaixadas e bandeiras de seu país. Ele criticou seu sucessor, o direitista Anders Fogh Rasmussen, por ter se recusado, no ano passado, a encontrar embaixadores árabes que queriam discutir a questão das caricaturas logo após sua publicação, em setembro.

Segundo o jornal argelino Al Watan, Fogh Rasmussen também se disse horrorizado com os ataques às embaixadas. "Todos os países têm a obrigação de garantir a segurança das missões diplomáticas em seu território", disse ele.

Os líderes parlamentares, a Comissão Européia e a Áustria, como presidente da UE neste semestre, prometeram fortalecer o diálogo com os muçulmanos moderados, sem permitir que extremistas prejudiquem suas relações.

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