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11/03/2006 - 19h49
Milosevic morre em prisão de Haia pouco antes de veredicto

Por Nicola Leske

HAIA (Reuters) - Slobodan Milosevic, chamado de o "açougueiro dos Bálcãs" devido aos conflitos que desmembraram a Iugoslávia na década de 1990, foi encontrado morto em sua cela no sábado, apenas 11 meses antes do fim do prazo para a sentença no seu julgamento por crimes de guerra.

"Milosevic foi encontrado sem vida em sua cama na sua cela", disse o tribunal da Organização das Nações Unidas (ONU) para crimes de guerra, com sede em Haia, numa nota oficial.

O tribunal disse que um médico da prisão confirmou a morte do ex-presidente iugoslavo, de 64 anos, que sofria do coração e de pressão alta.

Uma porta-voz do tribunal disse que não há indícios de que Milosevic tenha cometido suicídio. O julgamento, que já durara quatro anos, está encerrado com a morte dele, acrescentou ela.

O advogado de Milosevic, Zdenko Tomanovic, disse a jornalistas, porém, que seu cliente temia estar sendo envenenado e que apresentou um pedido formal de que seja realizada uma autópsia em Moscou.

O tribunal rejeitou o pedido, alegando que um patologista da Sérvia assistiria à autópsia, a ser realizada no domingo. Um carro funerário prateado, com escolta policial, foi visto deixando a prisão na noite de sábado.

Os problemas de saúde de Milosevic causaram muitas interrupções do julgamento. No mês passado o tribunal -- que se reunia três dias por semana de forma a permitir que Milosevic descansasse -- rejeitou uma tentativa dele de ir à Rússia para receber tratamento médico, afirmando que o julgamento estava quase no fim.

Rússia e Iugoslávia foram fortes aliados e Moscou se opôs à campanha de bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para pôr fim aos ataques dos sérvios contra pessoas de etnia albanesa em Kosovo. Os bombardeios resultaram na deposição de Milosevic em 2000, depois de 10 anos no poder.

ESCALADA ATÉ O PODER

Milosevic chegou ao topo da política na Iugoslávia no vácuo de poder deixado pela morte, em 1980, do marechal Josip Broz Tito, que governou o país com poderes ditatoriais depois da Segunda Guerra Mundial.

"Com a morte de Milosevic, um dos principais atores, se não o principal ator, das guerras balcânicas do final do século 20, saiu de cena", disse a jornalistas o ministro francês das Relações Exteriores, Philippe Douste-Blazy. Milosevic morreu de causas naturais, acrescentou.

Milosevic era acusado de 66 crimes, como genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Bósnia, Croácia e Kosovo, na tentativa de criar uma "Grande Sérvia" na década de 90.

Foi o mais significativo julgamento por crimes de guerra na Europa desde que os mais destacados nazistas foram julgados em Nurembergue, depois da Segunda Guerra Mundial.

As acusações contra Milosevic envolviam o cerco a Sarajevo durante a guerra da Bósnia, em 1992-95, e o massacre de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, uma "área de segurança" da ONU na Bósnia. O massacre, em 1995, foi a pior atrocidade ocorrida na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Milosevic havia dito que o seu julgamento por crimes de guerra não passava de uma "distorção da história" e acusou o Oeste de alimentar o colapso da Iugoslávia.

Foi a segunda morte no centro de detenção numa semana, depois do suicídio do ex-líder rebelde sérvio na Croácia, Milan Babic. Ex-aliado de Milosevic que já havia sido condenado por crimes de guerra, Babic era uma das principais testemunhas contra o ex-líder iugoslavo e o acusava de envergonhar os sérvios.

A morte de Milosevic levantará questões quanto à supervisão do centro de detenção. O tribunal foi criticado porque o julgamento seria longo demais, em comparação com o de Nurembergue, que durou um ano, e amplo demais, em comparação com o alcance mais limitado do julgamento de Saddam Hussein no Iraque.

"A morte de Slobodan Milosevic, algumas semanas antes do fim do julgamento, impedirá que a justiça seja feita neste caso", disse a promotora-chefe, Carla del Ponte, em nota oficial.

Ela afirmou, porém, que outros devem ser punidos pelos crimes pelos quais Milosevic era acusado e que seis acusados de crimes de guerra que ainda estão soltos, entre eles o ex-líder sérvio na Bósnia, Radovan Karadzic, e seu comandante militar, Ratko Mladic, devem ser presos.

UE ADVERTE A SÉRVIA

Os ministros do Exterior da União Européia lembraram a Sérvia no sábado de que o país deve prender os fugitivos, sob pena de pôr em risco a sua candidatura a integrar o bloco.

Kasim Cerkezi, um kosovar de etnia albanesa que perdeu seis familiares num ataque sérvio, em 1999, disse que a morte de Milosevic fez com que lhe fosse negada justiça.

"A punição dele não traria de volta meu filho, mas seria uma gota de satisfação num mar de dor", afirmou Cerkezi.

Pálido e com o cabelo branco penteado para trás, Milosevic disse no mês passado que sua saúde estava se deteriorando e que ouvia sons. Os juízes determinaram que ele fosse submetido a um novo exame médico.

A mulher de Milosevic, Mirjana, que foi sua namorada no colegial e muitas vezes foi considerada o motor da carreira dele, responsabilizou a corte. "O tribunal matou meu marido", disse ela à CNN.

A morte de Milosevic ocorreu numa hora difícil para a Sérvia. Kosovo deve se tornar independente e Montenegro também deve decidir num referendo marcado para maio sobre uma possível separação da Sérvia.

Os partidos nacionalistas sérvios de linha-dura afirmavam que Milosevic era um herói traído pelos entreguistas de seu próprio povo e querem que ele seja enterrado no cemitério de heróis nacionais.

Mas não havia muitos sinais de luto em Belgrado. Uma única coroa e duas velas foram colocadas na sede do partido de Milosevic, o Socialista, e um punhado de pessoas exibiam cartazes sobre ele.

(Com reportagem de Douglas Hamilton em Belgrado, Mark John, Paul Taylor em Salzburgo)

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