Por Eduardo Lima
SÃO PAULO (Reuters) - Enquanto São Paulo contava os números da terceira onda de atentados promovidos pelo crime organizado em menos de três meses, autoridades estaduais e federal trocavam críticas sobre um pacote de ajuda para conter a violência no Estado.
Da madrugada de domingo (6) até a tarde desta segunda-feira (7), a Polícia Militar de São Paulo registrou 78 ataques, com 93 alvos atingidos -entre eles, prédios públicos e privados, incluindo o edifício do Ministério Público do Estado (MPE), no centro da capital
Doze suspeitos de ter participado dos ataques foram presos, e outros dois morreram em confronto com a PM. Não houve mortos nem feridos entre os civis e os integrantes das forças de segurança.
O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, rebateu no final do dia declarações do secretário de Segurança Pública do Estado, Saulo de Castro Abreu Filho, sobre a falta de repasse de verbas, afirmando que os R$ 100 milhões prometidos já estavam disponíveis, mas que faltava um projeto a ser enviado pelo Estado.
"Pela veemência das declarações de algumas autoridades de São Paulo, fico com a impressão de que se está usando o fato de esse dinheiro não ter chegado como um tipo de pretexto", disse Thomaz Bastos, sem mencionar o nome do secretário.
Abreu Filho havia desafiado mais cedo o governo federal a entregar os R$ 100 milhões prometidos em julho, montante que sairia do Fundo Penitenciário (Fupen) para investimentos no serviço de inteligência, reconstrução de presídios e aquisição de novos equipamentos.
"O ministro da Justiça faltou com a verdade quando disse que os 100 milhões (de reais) ... viriam já", disse Abreu Filho.
O governador Cláudio Lembo (PFL) também criticou o governo federal. "Colocar tropa federal em São Paulo neste momento, tropa que ainda tem que ser cooptada em todo o país, é ingênuo", disse.
Agências, postos e supermercado
Segundo levantamento divulgado à tarde, 22 ônibus foram incendiados no Estado, sendo apenas um na capital. Doze postos de gasolina, 34 agências bancárias e caixas eletrônicos, duas concessionárias de carros, um supermercado e um trem do metrô foram atacados, segundo os dados da PM e da Secretaria de Segurança.
"Esta ação do crime organizado prova que eles estão fugindo do confronto com a polícia", disse o comandante-geral da PM de SP, Elizeu Eclair Teixeira Borges, acrescentando que, nesta madrugada de segunda para terça-feira, a polícia vai triplicar o número de viaturas nas áreas afetadas. "E, se atacarem a polícia, terão revide imediato que a lei permite."
O ataque à sede do Ministério Público Estadual, no centro de São Paulo, ocorreu por volta das 5h desta segunda. O prédio foi atingido por uma bomba caseira, que chegou até a destruir janelas no sexto andar do edifício. O prédio da Secretaria da Fazenda do Estado, no centro da cidade, e uma base da Guarda Civil Metropolitana na zona sul da capital também foram alvos dos criminosos.
Em um estacionamento próximo ao Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) da Polícia Civil, um incêndio danificou diversos carros, entre eles duas viaturas.
Dos 78 ataques, a PM informou que 40 foram atingidos por coquetéis molotov, 26 por disparos de armas, 11 por artefatos explosivos e outro ainda está sendo investigado.
Dia dos Pais
O procurador-geral de Justiça, Rodrigo Pinho, disse na manhã desta segunda-feira que o MPE já tinha informação sobre a eventualidade desse ataque à sua sede, uma vez que vem atuando contra o crime organizado.
Rumores sobre uma nova onda de ataques surgiram após um promotor do MPE comentar à rádio Jovem Pan na sexta-feira que ele seria contra a saída temporária de presos na semana do Dia dos Pais (próximo domingo). Quem dá o aval para isso é a Justiça, ouvindo a opinião do MPE e da Secretaria de Administração Penitenciária.
Além disso, também na sexta-feira, o MPE acusou Marcos Camacho, o Marcola, de participação na morte de um bombeiro no dia 12 de maio, na primeira onda de ataques atribuída ao grupo Primeiro Comando da Capital (PCC).
A primeira série de ataques no Estado começou com rebeliões em presídios e atentados contra alvos policiais e civis, como o transporte público e agências bancárias.
Segundo as autoridades, nos incidentes de maio (iniciados dia 12), mais de 160 pessoas morreram, sendo 41 agentes públicos (policiais, guardas municipais e agentes penitenciários). Os outros eram suspeitos que morreram em confrontos com a polícia ou em rebeliões nos presídios.
Na segunda onda de violência, deflagrada em 11 de julho, houve pelo menos 106 ataques, mais de 60 prisões e dez mortes, sendo três de suspeitos. Alvos civis como supermercados, bancos e ônibus foram atacados.
(Com reportagem de Fernanda Ezabella e Alice Assunção em São Paulo, e Ricardo Amaral em Brasília)